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O câmbio negro do colarinho branco

O que fazem e como agem os doleiros, personagens que deram origem às investigações da Operação Lava Jato

Redação

18 Maio 2015 | 04h00

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, e Julia Affonso

A Operação Lava Jato, maior escândalo de investigação da corrupção no Brasil, está sendo marcada pela presença de uma figura central: a do doleiro. Operadores do mercado ilegal de câmbio, eles formam um sistema bancário paralelo, informal e clandestino, para esconder dinheiro sujo e movimentações ilegais, a lavagem de dinheiro.

“Um agente público corrupto não pode simplesmente depositar na sua conta bancária os milhões de reais em propina que recebeu, porque isso poderia despertar a suspeita do banco e desencadear uma investigação. Por isso, ele buscará um “banco clandestino”, isto é, um doleiro, para lavar o dinheiro”, observa o Ministério Público Federal, em informações publicadas no site da força tarefa da Operação Lava Jato.

A primeira etapa das investigações da Lava Jato mirou organizações criminosas lideradas por quatro doleiros. Uma testemunha da operação, segundo a força-tarefa da Lava Jato, descreveu o escritório do doleiro Alberto Youssef como “um banco de dinheiro sujo”. Em depoimentos aos procuradores da República o doleiro revelou que diversas pessoas mantinham ‘contas correntes’ sob sua guarda.

O doleiro atuava como operador de propinas na diretoria de Abastecimento da Petrobrás, junto a Paulo Roberto Costa. O PP, o PT e o PMDB são suspeitos de lotear diretorias da Petrobrás para arrecadar entre 1% e 3% de propina em grandes contratos, mediante fraudes em licitações e conluio de agentes públicos com empreiteiras organizadas em cartel. O esquema instalado na estatal foi desbaratado pela força-tarefa da Lava Jato.

A propina era distribuída por meio de operadores financeiros do esquema, incluindo doleiros. A estimativa é que o volume de dinheiro desviado da Petrobrás esteja na casa de R$ 6,2 bilhões e pode chegar a R$ 7 bilhões.

Parte do dinheiro que circulou no esquema investigado pela Lava Jato foi escondida em offshores no exterior. Na primeira semana de maio, o juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações penais da operação, autorizou a devolução de R$ 157 milhões aos cofres da Petrobrás que eram mantidos em contas secretas do ex-gerente executivo da estatal Pedro Barusco em bancos suíços. O valor corresponde a cerca de 80% do que o executivo mantinha no exterior – R$ 204.845.582,11.

Doleiros também usaram offshores para, em nome delas, ocultar dinheiro sujo no exterior. Estas empresas são criadas em paraísos fiscais, onde as leis dificultam a punição de crimes e a identificação do verdadeiro beneficiário da empresa.

“Embora possa ser utilizada para fins lícitos, é comum o uso de offshore para propósitos criminosos, caso em que funciona como uma empresa de fachada”, alerta a força-tarefa da Lava Jato.

Quando criada para fins ilícitos, afirma o site da operação, a offshore é  registrada em nome de ‘laranjas’ do país em que é constituída, os quais outorgam procuração ao verdadeiro dono com amplos poderes de gestão da instituição de fachada. Esse verdadeiro dono pode ser, por exemplo, um agente público corrupto que, no momento seguinte, usará a offshore para abrir uma conta em algum outro país, onde esconderá o dinheiro sujo”, destaca texto publicado no site da força tarefa da Operação Lava Jato.

“Embora constituída em um paraíso fiscal no exterior, essa empresa nunca desenvolve negócios reais no exterior, não possuindo, usualmente, mais do que uma caixa postal para o recebimento de correspondências. No caso Lava Jato, o uso fraudulento de offshores foi identificado. Descobriu-se, por exemplo, que funcionários da Petrobrás abriram contas para receber propina, em vários países, as quais estavam em nome de empresas offshores.”

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