‘Japonês vai procurar por apoio de 4M ao Inst’, disse Odebrecht em e-mail

‘Japonês vai procurar por apoio de 4M ao Inst’, disse Odebrecht em e-mail

Empreiteiro entregou à PF mensagens que vinculam doação de R$ 4 milhões ao Instituto Lula, com suposta citação a Paulo Okamotto, à planilha de propinas 'italiano'

Julia Affonso, Luiz Vassallo e Ricardo Brandt

25 Setembro 2017 | 16h50

O empreiteiro Marcelo Odebrecht apresentou à Operação Lava Jato uma troca de e-mails entre ele e executivos do grupo sobre uma doação de R$ 4 milhões ao Instituto Lula vinculada à planilha de propinas ‘italiano’ – codinome usado pelos empresários para o ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda/Casa Civil – Governos Lula e Dilma). Além das mensagens, o empreiteiro entregou também à Polícia Federal quatro cópias de recibos de R$ 1 milhão, cada, referentes à doação.

Documento

Segundo Marcelo, os e-mails foram entregues em agosto deste ano, pois não haviam sido localizados na época em que fechou seu acordo e apresentou os anexos. As mensagens foram anexadas aos processos da Lava Jato na quinta-feira, 21.

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A primeira mensagem foi enviada por Marcelo Odebrecht em 26 de novembro de 2013, às 12h32, para os executivos Alexandrino Alencar e Hilberto Silva – chefe do Setor de Operações Estruturadas, o departamento de propinas da empreiteira. Todos são delatores da Lava Jato.

“Italiano disse que o Japonês vai lhe procurar para um apoio formal ao inst de 4m (nao sabe se todo este ano, ou 2 este ano e 2 do outro). Vai sair de um saldo que o amigo de meu pai ainda tem comigo de 14 (coordenar com HS no que tange ao Credito) mas com MP no que tange ao discurso pois será formal”, afirmou Marcelo.

Em depoimento à PF, o empreiteiro explicou as siglas inseridas no e-mail. “Japonês corresponde a Paulo Okamotto; que a palavra “Inst.” corresponde ao Instituto Lula; que “4M” corresponde ao valor de R$ 4 milhões; que “HS” são as iniciais de Hilberto Silva; que “MP” deve corresponder ao responsável pela comunicação na construtora, já que tudo seria formal e teriam que ter um discurso para eventual esclarecimento público”, declarou.

À PF, Marcelo apresentou ‘cópia dos recibos das quatro parcelas da doação ao Instituto Lula, cada uma no valor de R$ 1 milhão’.

“As cópias desses recibos foram extraídas do computador de Fernando Migliaccio, juntamente com os impressos dos e-mails, o que corrobora que os valores foram efetivamente descontados da planilha italiano, senão não haveria razão para estar de posse dele”, relatou.

Após o primeiro e-mail de Marcelo, o chefe do departamento de propinas da empresa respondeu. Às 8h38 de 27 de novembro de 2013, Hilberto Silva escreveu. “Entendi que Alexandrino vai me procurar para operacionalizarmos e ele me atualizar para que eu atualize nossa posição.”

Alexandrino retornou 20 minutos depois. “Sim, mas antes preciso me alinhar com o Japonês.”

Às 9h23, Hilberto reclamou. “Ok, mas não me deixe desatualizado. Estou tentando controlar esta conta que está uma suruba.”

Marcelo Odebrecht entregou à PF ainda uma e-mail enviado por ele somente a Hilberto Silva. Às 12h28, o empreiteiro disse. “Do saldo de 15M do amigo acertar com B: 500 + 500 para as próximas semanas.”

O executivo também explicou à PF esta mensagem. Segundo Odebrecht, ‘15M’ corresponde ao saldo da conta “amigo” naquela data.

“A palavra “amigo” se refere ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva; que “B11 é a letra inicial de Branislav, assessor de Palocci, e àquele o colaborador se referiu; que “500 + 500” se referem aos valores de quinhentos mil mais quinhentos mil, total de R$ 1 milhão que foi debitado na planilha italiano, lançado como Programa B 6 (Dez 2013) 1.000”, declarou Marcelo.

O empreiteiro afirmou que o pagamento foi combinado Branislak Kontic e ‘Hilberto ou Fernando Miggliacio’.

“Essa mensagem para Hilberto ocorreu às 12:28 horas; que quatro minutos depois o colaborador encaminhou o email anteriormente mencionado tratando da doação ao Instituto Lula, no qual já passou a considerar abatido R$ 1 milhão, ficando o saldo de R$ 14 milhões na conta “amigo”; que os valores doados ao Instituto Lula, total de R$ 4 milhões, foram lançados na planilha italiano como “Doação Instituto 2014 4.000”, após o qual remanesceu o saldo de R$ 10 milhões”, registrou Marcelo Odebrecht.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO CRISTIANO ZANIN MARTINS, QUE DEFENDE LULA

“A tentativa de criminalizar o recebimento de doações legais para o Instituto Lula, retratadas em recibos, parece ser a nova onda da perseguição da Lava Jato contra o ex-Presidente Lula. Lula não recebeu qualquer doação ilegal da Odebrecht ou de qualquer outra empresa. As doações questionadas não tiveram Lula como beneficiário, mas sim entidade sem fins lucrativos que não se confunde com o ex-Presidente”.

Cristiano Zanin Martins

COM A PALAVRA, O ADVOGADO FERNANDO FERNANDES, QUE DEFENDE PAULO OKAMOTTO

“Sobre pedido de esclarecimento quanto a supostos emails que Marcelo Odebrecht teria entregue a Polícia Federal vinculado doação de 4 milhões ao Instituto Lula em nome de “Italiano” em sua planilha, o advogado de Paulo Okamotto, Fernando Augusto Fernandes, informa que a defesa não teve acesso. No entanto não há qualquer relação de doações ao Instituto com qualquer propina. As ‘delações’ vão sendo moldadas às necessidades acusatórias e as formas com que vão construindo as mentiras processuais. Fosse diferente o fato já constaria de delações passadas. Paulo Okamotto já foi absolvido na única ação que respondeu.”