Filho de Picciani diz à PF que foi ao TCE ‘falar de gado’ com conselheiro

Filho de Picciani diz à PF que foi ao TCE ‘falar de gado’ com conselheiro

Empresário Felipe Picciani foi preso na Operação Cadeia Velha, sob suspeita de lavagem de dinheiro

Julia Affonso

23 Novembro 2017 | 05h08

Felipe Picciani, de camisa azul. Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

O empresário Felipe Picciani, filho do presidente licenciado da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Jorge Picciani (PMDB), disse à Polícia Federal que encontrou o ex-conselheiro Jonas Lopes no Tribunal de Contas do Estado para ‘conversar sobre gado’.

Felipe foi preso na Operação Cadeia Velha, desdobramento da Lava Jato, que capturou também seu pai e outros dois deputados estaduais do PMDB, Paulo Melo e Edson Albertassi, e atingiu empresários do setor de transportes do Rio.

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O filho preso de Jorge Picciani relatou à PF que ‘esteve com Jonas Lopes em uma oportunidade no TCE’.

“Tal encontro tinha por fim atender solicitação de Jonas Lopes para orientá-lo na parte técnica (contratação de assessoria técnica; empresa leiloeira; tipos de touro a utilizar no rebanho, … ) necessária à realização de leilões para a venda de seu gado; que o declarante não é o responsável pela emissão de notas fiscais; que jamais recebeu o pagamento em dinheiro em decorrência de negócios efetivados com Jonas Lopes, ressaltando mais uma vez que é responsável pela parte técnica da empresa”, afirmou.

Felipe Picciani disse à PF que ‘possui como principal fonte de renda a divisão de lucros de sua empresa Agrobilara, da qual é sócio juntamente com seu pai e sua mãe’. Também controlam a Agrobilara os peemedebistas Leonardo Picciani, ministro dos Esportes (Governo Michel Temer), e Rafael Picciani, deputado estadual.

“O sr. Jonas Lopes já comprou gado da Agrobilara e da Agrocopa; que nada sabe sobre a forma de pagamento das compras realizadas por Jonas Lopes de Carvalho; que nada sabe sobre o pagamento feito a Agrocom no valor de R$ 100 mil, realizado em 2012; que conheceu Jonas Lopes em leilões realizados pela Agrobilara e Agrocopa, tendo estado também com seu pai Jorge Picciani, em sua fazenda de Uberaba”, afirmou Felipe.

Jorge e Felipe Picciani foram citados na delação premiada do ex-presidente do TCE Jonas Lopes de Carvalho Júnior.

O delator contoou que ajustou com Picciani pai ‘o subfaturamento da operação de compra do gado’.

“Procurou, então, Felipe Picciani para lhe auxiliar; que chegou a ir a Fazenda de uma agropecuária da família Picciani em Uberaba/MG (Agrobilara), por meio de avião particular, jato, que saiu do aeroporto Santos Dummont”, narrou. “Nessa oportunidade, estava acompanhado do deputado estadual Jorge Picciani e seu filho Felipe Picciani, ambos sócios da referida agropecuária.”

Segundo o delator, na ocasião, ele ‘comprou 100 novilhas Girolando, ao custo de R$ 600 mil’. Jonas Lopes Júnior declarou ter ajustado com pai e filho ‘a emissão de notas fiscais referentes ao gado em valores inferiores da quantia real do preço ajustado’.

“O valor correspondente às notas fiscais foi quitado mediante pagamento em 24 parcelas de R$ 50 mil cada; que Felipe comparecia ao Gabinete da Presidência do TCE/RJ para recolher o dinheiro ou na residência do colaborador (Jonas Lopes Júnior); que os recursos utilizados no pagamento em espécie do gado eram provenientes dos ativos auferidos ilicitamente em razão do cargo de Conselheiro do TCE/RJ”, relatou.

Jonas Lopes Júnior disse na delação premiada que o velho cacique Jorge tinha conhecimento ‘da origem ilícita dos recursos porque sabia especificamente que o colaborador ajustava o recebimento de vantagens indevidas’ para o Tribunal de Contas.

O ex-conselheiro narrou ainda uma segunda compra junto a família Picciani. Desta vez, afirmou, Felipe o procurou e disse que ‘outra empresa de sua propriedade, de nome Agrocopa, iria vender seu plantel’.

De acordo com Jonas Lopes Júnior, foi usado o mesmo modus operandi da primeira compra. O ex-presidente da Corte de Contas fluminense relatou que os recursos usados ‘para aquisição do gado da Agrocopa também tinham origem ilícita’.

“Não sabe afirmar se foram pagos pelo gado R$ 450 mil ou R$ 500 mil”, afirmou. “As notas fiscais eram emitidas em valor inferior ao de fato devido; que registra que alguns animais foram adquiridos de forma correta, com registro na nota fiscal do valor efetivamente pago; que a diferença paga em espécie foi entregue a Felipe Picciani e André Monteiro, sócios da Agrocopa; que os pagamentos se deram no Gabinete da Presidência do TCE/RJ e também na residência do colaborador.”

Para os investigadores da Cadeia Velha, ‘a segunda compra é marcada pela iniciativa de Felipe, evidenciando que esse tipo de negócio faz parte da sua rotina, tanto é que sem qualquer pudor recolhia o dinheiro no próprio Tribunal de Contas do Estado do Rio’.