Filha de almirante tinha ‘papel ativo’ em esquema de corrupção, diz Procuradoria

Filha de almirante tinha ‘papel ativo’ em esquema de corrupção, diz Procuradoria

Ana Cristina Toniolo é alvo da investigação sobre propinas de R$ 4,5 milhões que teriam sido pagas por empreiteiras de Angra3 a seu pai, o ex-presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, preso desde 28 de julho

Redação

11 Agosto 2015 | 05h00

Othon Luiz Pereira da Silva. Foto: André Dusek/Estadão

Othon Luiz Pereira da Silva. Foto: André Dusek/Estadão

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

O Ministério Público Federal afirmou que Ana Cristina Toniolo, filha do almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, ex-presidente da Eletronuclear, tinha ‘um papel ativo’ no esquema de propina que envolve seu pai, preso em 28 de julho na Operação Radiotividade, 16.ª etapa da Lava Jato. Othon Luiz está sob suspeita de ter recebido propinas de R$ 4,5 milhões de empreiteiras contratadas para obras em Angra 3.

O dinheiro ilícito teria sido repassado ao almirante por meio da empresa Aratec Engenharia e Representações, controlada por ele e pela filha.


A custódia temporária do almirante foi convertida em preventiva na sexta-feira, 7, pelo juiz Sérgio Moro, que recebeu novas provas reunidas pela Procuradoria da República. Uma delas é o depoimento do empresário Victor Sérgio Colavitti, novo delator da Lava Jato e dono da Link Projetos e Participações.

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Victor Colavitti confessou que sua empresa foi usada como intermediária para repasse de ao menos R$ 765 mil, de 2010 a 2014, entre a empreiteira Engevix e a Aratec Engenharia Consultoria e Representações, do almirante Othon Luiz.

“As declarações do colaborador Victor Sergio Colavitti somadas ao conjunto de provas já constante dos autos, evidenciam plenamente que foram firmados contratos fictícios pela Link Projetos, tanto com a Engevix, tanto com a Aratec, para que fosse proporcionada a passagem de valores da corrupção para Othon Luiz”, destaca a Procuradoria. “Percebe-se, ainda, que a filha de Othon Luiz, sra. Ana Cristina, tinha papel ativo no esquema, seja por meio da confecção de contrato fictício, seja por meio da emissão de notas fiscais frias, seja inclusive, por ter feito cobranças à Link para que fosse efetuado o repasse da propina.”

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Victor Colavitti afirmou que não conheceu Othon Luiz ou sua filha Ana Cristina Toniolo e que não sabia que os pagamentos envolviam contrapartida de contratos da Engevix com a Eletronuclear ou qualquer empresa pública. O empresário afirmou que parou de fazer pagamentos à Aratec quando a fase ostensiva da Lava Jato foi deflagrada em março de 2014.

“Decidiu que a partir dali não faria mais qualquer pagamento a pedido da referida empresa relacionado aos repasses para a Aratec; que no mês de abril de 2014, Ana Cristina enviou uma nova nota fiscal à Link por e-mail, relativa a uma parcela do aludido contrato; que Ana Cristina chegou a ligar para a empresa do declarante para cobrar o pagamento, tendo falado com o funcionário Pedro Bezerra de Souza; que Pedro informou que não tinha mais autorização para realizar os ditos pagamentos”, contou Victor Colavitti à força-tarefa da Lava Jato.

O empresário relatou ainda que, ao receber um ofício do Ministério Público Federal, em 2015, cobrando explicações sobre a relação entre a Link e a Aratec, resolveu procurar Ana Cristina para saber o que estava acontecendo.Ele disse que procurou o telefone na internet, mas o telefone que consta do site da Aratec não correspondia ao atual.

“Então pediu ao seu funcionário Pedro que fosse até o endereço mencionado na nota fiscal da Aratec; que Pedro foi até o local, onde constatou que a empresa estava instalada em outro endereço, conforme dados que lhe foram passados pelo porteiro do endereço anterior; Que Pedro, no mesmo dia, foi até o novo endereço e encontrou Ana Cristina, e lhe informou que Rodrigo Severino Brito, com quem o declarante divide o escritório, gostaria de conversar com ela, e ainda lhe entregou um cartão do declarante no qual havia escrito no verso a frase “preciso falar urgente””, relatou Victor Colavitti.

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O dono da Link sustentou. “Ana Cristina então forneceu um telefone a Pedro, para o qual o declarante ou Rodrigo poderiam ligar; que Rodrigo efetivamente ligou para Ana Cristina, que marcou um encontro no Shopping Barueri para a quarta-feira, dia 29 de julho, alegando que antes disso teria já marcada uma viagem ao exterior; que, contudo, preocupado com a situação, o declarante incumbiu Rodrigo de procurar assistência jurídica na terça-feira, dia 21 de julho; que o declarante iria viajar no dia 20 de julho à noite, por isso incumbiu Rodrigo de procurar os advogados, sendo que seus advogados lhe disseram para não irem ao encontro; que no dia 28 de julho houve o cumprimento de mandados de busca e apreensão na empresa do declarante, e não foi feito mais qualquer contato com Ana Cristina.”

Procuradas, as defesas de Othon e de sua filha não se manifestaram. Na semana passada, a defesa do almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva afirmou à Justiça Federal que os repasses de empreiteiras para a Aratec Engenharia, criada pelo ex-presidente da Eletronuclear, estão relacionados a serviços de tradução prestados por sua filha. Em petição anexada aos autos da investigação, a filha do almirante, Ana Cristina Toniolo, corroborou o que foi dito pela defesa do pai.