As contas secretas do almirante da Eletronuclear em Luxemburgo

As contas secretas do almirante da Eletronuclear em Luxemburgo

Lava Jato rastreia ativos do presidente licenciado da estatal e da filha dele em nome de offshores constituídas em Hong Kong e no Uruguai

Redação

10 Agosto 2015 | 05h00

Othon Luiz Pinheiro da Silva. Foto: Beto Barata/AE

Othon Luiz Pinheiro da Silva. Foto: Beto Barata/AE

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

Os investigadores da Operação Lava Jato descobriram contas secretas no exterior ligadas ao presidente licenciado da Eletronuclear, o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, e sua filha Ana Cristina Toniolo. Segundo a força-tarefa do Ministério Público Federal, Othon e a filha não declararam à Receita Federal a titularidade de ativos fora do País. A Eletronuclear e a Usina de Angra 3 são alvo dos investigadores da Lava Jato.


Em despacho que decretou a prisão preventiva do almirante, nesta quinta-feira, 6, o juiz federal Sérgio Moro ressaltou que, que entre julho e agosto de 2014, a filha do executivo abriu uma conta no Banco Havilland S/A, em Luxemburgo, em nome da offshore Hydropower Enterprise Limited, com sede em Hong Kong. Os beneficiários da conta são a própria Ana Cristina e a Aratec Engenharia e Consultoria, empresa controlada pelo pai. Na ocasião da abertura da conta, a Lava Jato já havia sido deflagrada.

A filha do almirante tem ainda, segundo os investigadores, uma offshore constituída no Uruguai, a Waterland.

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Offshore Hydropower ligada ao almirante e a sua filha. Foto: Reprodução

O saldo das contas ainda é desconhecido, mas por meio de cooperação jurídica internacional o Brasil deverá receber cópias de extratos com a movimentação financeira das offshores.

“Saliente-se que nos documentos da offshore Waterland, faz-se expressa referência ao cliente como sendo “Othon Pinheiro da Silva”, apesar da documentação formal estar em nome da filha. Destaque-se que nem a filha de Othon, nem o próprio Othon, declararam à Receita Federal serem titulares de ativos no exterior”, apontou Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato.

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Os documentos revelados pelo Ministério Público Federal indicam, para Moro, ‘que as contas podem ter sido utilizadas para o recebimento de propina e ocultação e dissimulação do produto do crime, sendo de se destacar que uma delas foi aberta ainda no segundo semestre de 2012’.

O almirante teria recebido, pelo menos, R$ 4,5 milhões de empreiteiras que mantêm contrato com a Eletronuclear. Esse valor já foi rastreado na conta da Aratec Engenharia. Os investigadores suspeitam que a propina para o almirante da Eletronuclear pode ter chegado a R$ 30 milhões.

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Othon Luiz foi presidente da Eletronuclear entre 5 de outubro de 2005 e 29 de abril de 2015, quando licenciou-se do cargo. Para a Polícia Federal, ele se afastou em decorrência de notícias sobre o possível envolvimento da Eletronuclear na Lava Jato.

“O afastamento do cargo público em nada altera o risco à instrução ou investigação, pois a produção de documentos falsos pode ser feita fora da Eletronuclear”, sustenta o juiz da Lava Jato.