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ALBERTO YOUSSEF

E-mails reforçam suspeita de propina do esquema Petrobrás para agência de propaganda

Muranno teria recebido R$ 1,7 milhão "por ordem de Lula e Gabrielli", segundo doleiro Alberto Youssef

Redação

12 Novembro 2014 | 23h21

Por Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Mateus Coutinho

A Polícia Federal está de posse de uma sequência de e-mails que reforçam a suspeita de que a agência de propaganda e marketing Muranno Brasil recebeu R$ 1,7 milhão do esquema de corrupção e propina na Petrobrás. Essa nova linha de investigação da Operação Lava Jato pode atingir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente da estatal petrolífera José Sérgio Gabrielli, citados pelo doleito Alberto Youssef como ordenadores do pagamento à Muranno.

Os e-mails que a PF analisa foram trocados entre o empresário Ricardo Villani, dono da agência de propaganda, o ex-gerente de Comércio de Álcool e Oxigenados da Petrobrás Sillas Oliva Filho e outros funcionários da estatal, entre 2006 e 2009.

A Muranno foi apontada por Youssef como uma agência contratada pela Petrobrás com dinheiro não contabilizado. Credora de cerca de R$ 7 milhões, a Muranno teria pressionado o governo Lula para receber valores atrasados.

O doleiro está fazendo delação premiada junto à força tarefa de procuradores da República que investigam a Lava Jato.

Em 2010, segundo o doleiro, o dono da empresa teria ameaçado denunciar os esquemas de corrupção e propina na estatal controlado pelo PT, PMDB e PP e que abasteceu também o PSDB e o PSB.

Youssef afirmou que Lula soube da ameaça, na época, e teria determinado a Gabrielli que usasse o dinheiro “das empreiteiras”  – denunciadas na Justiça Federal por causa das obras da refinaria Abreu e Lima – para resolver a pendência. O ex-presidente da Petrobrás teria procurado por Costa, que determinou a Youssef o pagamento.

Segundo o doleiro, que aceitou dizer o que sabe em troca de redução de pena, foi ele quem pagou R$ 1,7 milhão à Muranno entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011, a pedido de Costa.

No radar. A Muranno era alvo da Lava Jato desde agosto quando foi aberto um inquérito específico para apurar qual o envolvimento da agência no esquema de caixa-2 nas obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. A agência de propaganda aparecia nos pagamentos registrados na contabilidade pessoal das empresas de fachada de Youssef e na quebra de sigilo bancário das empresas investigadas nas obras da Abreu e Lima.

No dia 9 de setembro Villani foi ouvido pela PF e confirmou que prestou serviços sem contrato entre 2006 e 2009 para a Petrobrás. Ele disse que em 2004 Oliva Filho o aconselhou a abrir uma empresa para fazer o marketing da Petrobrás em provas de corrida de automóvel nos Estados Unidos.

Segundo ele, a Muranno foi criada especificamente para esses serviços, divulgação do etanol nas provas da Fórmula Indy.

Villani afirmou que tinha R$ 7 milhões a receber. Segundo ele, depois de se reunir pessoalmente com Paulo Roberto Costa – ainda diretor de Abastecimento da Petrobrás -, foi procurado por Youssef, que se identificou como “Primo” e providenciou os pagamentos de parte da dívida. Disse que procurou Costa depois que ele deixou a estatal, em 2012.

Villani, que está sob suspeita da PF, afirmou ter recebido só uma parte do montante e que não procurou a Justiça para cobrar a Petrobrás porque nunca fez um contrato formal. Em 29 de outubro, confirmou ao Estado ter valores a receber, mas negou que era referente à propina. Disse que eram atrasados dos serviços prestados.

Contato. Tanto para a PF no dia 9 de setembro, como ao Estado, depois de saber o conteúdo da delação de Youssef, Villani apontou o então gerente de Álcool e Oxigenados da Petrobrás Sillas Oliva Filho como seu principal interlocutor no contrato.

Foi o próprio empresário que entregou os e-mails à PF – uma série de 11 e-mails trocados entre 2006 e 2009, por Villani, o ex-gerente da Petrobrás e outras pessoas com cargo de confiança na estatal, tratando do marketing da estatal em provas de Fórmula Indy nos Estados Unidos.

Em um email de 24 de abril de 2007, por exemplo, Oliva Filho escreve de seu e-mail profissional para Geovane de Moraes, gerente de Comunicação ligado à Diretoria de Abastecimento – que era comandada por Paulo Roberto Costa, delator da Lava Jato, e copia “Ricardo Vilani” e outros três contatos, todos com e-mail corporativo da estatal.

No texto, o ex-gerente da Petrobrás orienta Geovane como proceder em relação aos argumentos para explicar a necessidade do marketing em negociação nas exportações e negócios da estatal. Num trecho, ele questiona sobre o impacto de uma imagem de Lula e Bush com capacete da Petrobrás pelo mundo. “Gostaria de saber, se é possivel mensurar, de quanto é o valor da foto do Presidente Lula com o presidente Bush com capacete da Petrobrás em todas as mídias do mundo?”.

ABAIXO O E-MAIL ENVIADO POR SILLAS OLIVA FILHO

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Os e-mails foram trocados entre Oliva Filho, Villani, a filha do empresário, Luciana Villani, um funcionário e pelo menos outros seis interlocutores ligados à Petrobras. Num deles, os donos da agência Muranno comemora a confirmação de produtos fechados com a estatal.

Habeas corpus. Os e-mails fora anexados no inquérito por Villani em um pedido de habeas corpos que ele fez no dia 3 de novembro e negado na última terça feira, 11, pelo juiz Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato.

No habeas corpus, o empresário pede para não ser preso, caso seja alvo de um pedido dessa natureza. Os documentos anexados serão considerados provas na investigação.

O pedido de habeas corpus foi apresentado à Justiça após parte da delação de Youssef, ligando Muranno a Lula, Gabrielli e o esquema na Petrobrás, ser revelada pelo Estado, no final de outubro.

Villani entrou na Justiça Federal com um pedido de habeas corpus para não ser preso na Lava Jato. O pedido é de 3 de novembro e foi extinto nesta quarta-feira, 12, pelo juiz Sérgio Moro.

Com o inquérito já aberto perante a primeira instância na Justiça Federal do Paraná, o envolvimento da Muranno será analisado individualmente. As citações a Lula e a Gabrielli fazem parte da delação do doleiro, que ainda está em sigilo e não foi homologada.

COM A PALAVRA, A DEFESA

A Petrobrás não se manifestou sobre o caso envolvendo a Muranno e funcionários da estatal.

O ex-presidente Lula tem reiterado sucessivamente que não se pronuncia sobre vazamento de delação premiada.

José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás, repudiou taxativamente ligações com o episódio da Muranno, tão logo seu nome foi citado pelo doleiro Youssef. Gabrielli tem reiterado que jamais envolveu-se em práticas ilícitas e que vai tomar medidas judiciais cabíveis contra os que o citam no caso Petrobrás.