Doleiro diz que Vaccari e cunhada receberam R$ 800 mil de propina em São Paulo

Alberto Youssef revelou que operacionalizou a entrega de dois pagamentos de R$ 400 mil para o PT, via tesoureiro João Vaccari, por contrato da Petrobrás

Redação

12 Fevereiro 2015 | 15h41

Atualizada às 17h13

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo e Julia Affonso

O doleiro Alberto Youssef detalhou em sua delação premiada, anexada aos autos da Operação Lava Jato ontem, que cuidou de dois repasses de aproximadamente R$ 400 mil para João Vaccari Neto, em nome do PT. O valor de R$ 880 mil, ao todo, teria sido pago pela empresa Toshiba Infraestrutura em uma contratação para obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), entre 2009 e 2010.

“O valor do PT foi negociado com João Vaccari, que na época representava o PT nos recebimentos oriundos dos contratos com a Petrobrás”, revelou o doleiro, em depoimento prestado em novembro de 2014 e mantido sob sigilo até ontem.

Um dos pagamentos foi recebido pela cunhada de Vaccari, Marice Corrêa Lima, no escritório do doleiro em São Paulo, e outro pelo próprio tesoureiro em uma “sacola lacrada” em restaurante perto da Avenida Paulista. Segundo Youssef, na contratação da Toshiba para as obras da Casa de Força, do Comperj, entre 2009 e 2010, a empresa corria o risco de ser desclassificada e buscou Youssef e o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa para vencer o contrato – que segundo ele, era de R$ 130 milhões, aproximadamente, e com descontos teria baixado para R$ 117 milhões.

Na nona fase da Operação Lava Jato, denominada My Way, o tesoureiro do PT, João Vaccari, foi levado à PF para depor. Foto: Felipe Rau/Estadão

Vaccari prestou depoimento à PF na semana passada. Ele nega participação em esquema de propina. Foto: Felipe Rau/Estadão

Youssef afirmou à força-tarefa da Lava Jato que “o presidente da Toshiba no Brasil, que ficava em São Paulo, e também o diretor comercial, de nome Piva, trataram diretamente” com ele que “iriam dar 1% do valor da obra para o PP e 1% para o PT”. José Alberto Piva Campana é o executivo da Toshiba.

A cota do PT era referente aos valores de propina exigidos pelo ex-diretor de Serviços Renato Duque, indicado pelo partido para o cargo. Youssef disse que, na época, os dois executivos da Toshiba pediram para usar uma das empresas de fachada de sua lavanderia – a MO Consultoria – “para fazer o repasse tanto do PP quanto do PT”.

Cunhada. Logo após o depósito da Toshiba, Youssef sacou da conta da empresa fantasma “pouco mais de R$ 400 mil e entregou a uma emissária de Vaccari, chamada de Marice”. O doleiro detalhou que “atendeu (Marice) no seu escritório em São Paulo e lhe entregou o dinheiro”. “Quem passou o nome desta Marice como sendo a pessoa a quem deveriam ser entregues os valores destinados ao PT foi o diretor comercial da Toshiba, chamado Piva”, afirmou Youssef.

O executivo da empresa – já investigada anteriormente pela Lava Jato – teria dito a ele que a “emissária” chegaria pela garagem e “passou o dia e hora que a mesma iria encontrar” com o doleiro.

Restaurante. O doleiro relatou ainda uma segunda entrega de dinheiro ao tesoureiro do PT. “Alguns meses depois, Piva marcou em um restaurante em São Paulo o recebimento de mais uma parcela dos valores destinados ao PT que haviam sido transferidos”, explicou Youssef.

“Piva informou que almoçaria com João Vaccari e ali aproveitaria para fazer a entrega de parte do restante destinado ao PT”, acrescentou o delator da Lava Jato.

Contou o doleiro que o executivo da Toshiba dias antes havia ido até seu escritório “mas ficou receoso de sair com uma quantia alta, e por isso, marcou uma segunda oportunidade para receber os valores e de imediato já entregar a Vaccari”.

Foi Rafael Ângulo Lopes – um dos carregadores de dinheiro de Youssef – que levou a quantia, segundo afirmou o delator. Ele diz ter pedido ao “funcionário” para levar a quantia em um restaurante indicado por Piva, que fica perto da Avenida Paulista e ali lhe entregar uma sacola lacrada com os valores devidos”.

“Este valor também girava em pouco mais de R$ 400 mil”, revelou o doleiro.

COM A PALAVRA, A DEFESA.

O secretário Nacional de Finanças do PT, João Vaccari Neto, negou veementemente nesta quinta-feira, 12, que tenha recebido qualquer quantia em dinheiro por parte do doleiro Alberto Youssef.

Em nota, a Secretaria de Finanças do PT reagiu às declarações do doleiro em delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato. “Dessa forma, são absolutamente mentirosas as afirmações feitas por esse senhor (Youssef), em processo de delação premiada, tanto no que concerne a uma suposta entrega de dinheiro para sua cunhada (Marice Correa) quanto em um suposto encontro em um restaurante”.

Ontem, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, afirmou que vai acionar na Justiça o ex-gerente de Engenharia Pedro Barusco pelas afirmações de que o partido arrecadou até US$ 200 milhões em propina durante dez anos, em cerca de 90 contratos da Petrobrás.