Delator diz que Pezão sabia de pagamentos irregulares na campanha de 2014

Delator diz que Pezão sabia de pagamentos irregulares na campanha de 2014

Breno Pires e Rafael Moraes Moura / BRASÍLIA

14 Novembro 2017 | 23h30

Luiz Fernando Pezão, governador do Rio. Foto: Marcos de Paula/Estadão

Em acordo de colaboração premiada ainda não homologado pelo Supremo Tribunal Federal, o marqueteiro Renato Pereira, que trabalhou na campanha de Luiz Fernando Pezão (PMDB) ao governo do Estado do Rio em 2014, afirmou que o então candidato sabia que pagamentos irregulares estavam sendo utilizados em sua campanha.

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Segundo Pereira, houve repasses irregulares da empreiteira Andrade Gutierrez no valor de R$ 5 milhões à pré-campanha, por meio de agências de publicidade, que promoveram o repasse à Prole, agência de Renato Pereira. O teor da delação de Renato Pereira foi revelado pelo jornal O Globo no início deste mês.


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“A certa altura, os pagamentos passaram a ser feitos irregularmente, o que relatei a Fernando Pezão por mais de uma vez”, disse Renato Pereira, em acordo de colaboração premiada assinado com o Ministério Público Federal. O acordo ainda não foi homologado (validado judicialmente) pelo ministro-relator no STF, Ricardo Lewandowski. Em uma decisão marcada por críticas aos poderes do Ministério Público Federal em relação a acordos de colaboração premiada, Lewandowski devolveu o acordo de Pereira à Procuradoria para readequação.

Na delação, o marqueteiro afirmou que foi a um jantar na casa de Pezão, onde o peemedebista lhe relatou que Sérgio Andrade, um dos donos da Andrade Gutierrez, iria contribuir com R$ 10 milhões para a sua campanha – no fim, o valor ficou em quase a metade. Renato Pereira disse que, depois disso, teve reunião com seu sócio, Eduardo Vilela, e com duas ou três pessoas da Andrade Gutierrez, para acertar o pagamento. Segundo ele, “o pagamento foi feito por meio de um acerto de contas entre o grupo Prole e PPR para que pudessem receber cerca de R$ 3 milhões, e que recebeu cerca de R$ 2 milhões através da empresa Propeg, através de superfaturamento de um serviço para a empresa Propeg”.

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O delator relatou que Propeg e NBS foram as duas agências de publicidade por meio das quais a soma de quase R$ 5 milhões foi entregue à Prole, sua própria agência de publicidade. Segundo ele, teriam sido pagos R$ 3 milhões via NBS e quase R$ 2 milhões via Propeg. “Somadas, essas duas últimas operações que envolveram a Andrade Gutierrez totalizaram cerca de R$ 5 milhões”, disse.

Os pagamentos feitos à campanha, declarou Pereira, começaram no segundo semestre de 2013 e duraram até junho de 2014, em parcelas mensais de R$ 400 mil. “Os valores foram entregues a mim pelo emissário (Jacob) Barata (Filho), no prédio da Prole, e repassados a Eduardo Vilela (seu sócio) para execução do orçamento.”

O delator afirmou que recorda ter recebido recursos em espécie da ordem de R$ 700 mil, entregues por um ex-assessor do ex-governador Sérgio Cabral. Segundo Pereira, a remuneração pelos serviços só ocorria, de fato, no período de campanha. Sobre esse ponto, ele disse que se encontrou com Cabral, na casa do peemedebista. “Apresentei orçamento no valor de R$ 40 milhões, o qual foi aprovado”, disse. “Para os serviços de campanha, foi contratada a produtora Cara de Tão, que emitiu nota fiscal contra o PMDB, em valor menor do que o efetivamente cobrado.”

A Propeg e a NBS foram procuradas pela reportagem, mas não responderam. A defesa de Cabral e dos outros citados não foram localizadas. O espaço está aberto para manifestações.

COM A PALAVRA, PEZÃO

A assessoria de imprensa do governador Luiz Fernando Pezão afirmou ao Estadão/Broadcast que “todas as doações de campanha foram feitas de acordo com a Justiça Eleitoral” e que “a seleção de agências de publicidade é feita pelo governo do estado por intermédio de licitação pública”.

COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ

Oi, Julia! Tudo bem?
Tive o outro lado da Andrade Gutierrez pra esta matéria:

Podes incluir?
URGENTE – NOTA ANDRADE GUTIERREZ

“A Andrade Gutierrez segue colaborando com as investigações em curso dentro do acordo de leniência firmado pela empresa com o MPF e reforça seu compromisso público de esclarecer e corrigir todos os fatos irregulares ocorridos no passado. A empresa continuará realizando auditorias internas no intuito de esclarecer fatos que possam ser do interesse da Justiça e dos órgãos competentes. A Andrade Gutierrez acredita ser esse o melhor caminho para a construção de uma relação cada vez mais transparente entre os setores público e privado.”