Delator da Marcapasso relata ‘ajuda’ do pai do governador do TO junto à Saúde

Delator da Marcapasso relata ‘ajuda’ do pai do governador do TO junto à Saúde

Antônio Bringel afirma que José Edimar Brito Miranda, pai de Marcelo Miranda (PMDB), disse que intercederia junto à Pasta para que houvesse liberação de créditos para a empresa do delator

Julia Affonso

08 Novembro 2017 | 12h17

Marcelo Miranda. Foto: Elizeu Oliveira/Governo do Tocantins

O empresário Antônio Bringel, delator da Operação Marcapasso, contou ao Ministério Público Federal ter se reunido com José Edimar Brito Miranda, pai do governador do Tocantins, Marcelo Miranda (PMDB), e com uma lobista. Na ocasião, diz o delator, o pai do governador afirmou que intercederia junto à Secretaria de Saúde do Estado para que houvesse liberação de créditos para a empresa de Antonio Bringel.

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A operação foi deflagrada nesta terça-feira, 7, contra um esquema de corrupção instalado na Pasta da Saúde do Tocantins.

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José Edimar Brito Miranda foi alvo de mandados de condução coercitiva e busca e apreensão da Marcapasso e está proibido de acessar ou frequentar órgãos públicos estaduais.

A investigação começou após a prisão em flagrante dos sócios Antônio Bringel e Cristiano Maciel Rosa. Os empresários, controladores da Cardiomed Comércio e Representação de Produtos Médicos e Hospitalares, forneceram à Secretaria de Saúde do Tocantins produtos para fins terapêuticos ou medicinais com prazos de validade de esterilização vencidos.

Perante a Procuradoria da República, no Tocantins, Bringel narrou um ‘episódio de solicitação de verbas à Cardiomed para viabilizar a liberação dos pagamentos dos atrasados pela Secretaria de Saúde do Estado do Tocantins’.

O delator contou que sua empresa estava ‘em dificuldades para receber créditos que tinha junto’ à Pasta estadual e um médico o indicou a lobista Sonia Vieira ‘como uma pessoa de trânsito livre na Secretaria e que poderia ajudar a Cardiomed no recebimento de créditos’.

Antônio Bringel relatou ao Ministério Público Federal um encontro com Sonia Vieira ‘no início de 2015 (por volta de fevereiro)’. Segundo o empresário, a lobista o procurou e ‘iniciou as tratativas para o recebimento dos créditos’.

“Esteve reunido com Sonia em diversas oportunidades, tendo sido ao final acordado o pagamento de percentuais dos montantes a receber da Secretaria de Saúde, para que Sonia diligenciasse junto à Secretaria o pagamento dos valores; que, posteriormente, Sonia levou o colaborador até a pessoa de Brito Miranda; que o colaborador Antonio Bringel esteve reunido com Sonia Vieira e Brito Miranda no escritório político deste, situado no JK Business (em frente ao Banco da Amazônia)”, declarou.

O delator disse que seu sócio Cristiano Rosa ‘também esteve presente na reunião’. Na ocasião, relatou, ‘Brito Miranda teve conhecimento dos fatos e afirmou que intercederia junto à Secretaria de Saúde para que houvesse o pagamento dos créditos detidos pela Cardiomed’.

“A reunião com Brito Miranda, marcada por Sonia, serviu para que os colaboradores pudessem ter confiança de que os pagamentos seriam de fato feitos pela Secretaria de Saúde; que, após Sonia ter intercedido junto à Secretaria de Saúde, a Cardiomed recebeu o montante de R$ 1 milhão; que, em razão disso, o colaborador, junto com seu sócio, pagou R$ 100 mil a Sonia Vieira, conforme combinado”, afirmou.

Antônio Bringel declarou ter pago o valor em cheque. Segundo o delator, ‘para dar aparência de licitude ao pagamento do montante, Sonia celebrou contrato com a Cardiomed, sob o pretexto de prestar consultoria’.

“Sônia Vieira foi buscar o cheque na sede da Cardiomed, em Araguaína, e que as câmeras da empresa registraram sua presença; que Sônia Vieira solicitou que um funcionário da Cardiomed a acompanhasse até a agência bancária, com o objetivo de sacar o dinheiro recebida; que ela foi acompanhada pelo funcionário Edilson Ferreira Nunes (gerente da Cardiomed) até a agência do Banco do Brasil em Araguarna; que a própria Sônia Vieira efetuou o saque do cheque e, na sequência, efetuou alguns pagamentos no guichê do caixa, conforme o sr. Edilson relatou ao colaborador”, narrou o delator.

Na decisão que mandou deflagrar a Marcapasso, o juiz federal João Paulop Abe, da 4.ª Vara Criminal Federal, apontou evidências de ‘possível prática de tráfico de influência por parte de Sonia Vieira a mando de José Edimar Brito Miranda’.

“Sendo certo que, segundo dão a entender os delatores, Brito Miranda, sem o conhecimento de seu filho, o governador do Estado Marcelo Miranda, teria cobrado um percentual sobre os recebíveis, a pretexto de influir nas decisões da Secretária Estadual de Saúde. O suposto tráfico de influência pode estar voltado à aceleração na liberação de pagamentos pela Secretaria de Saúde às empresas contratadas”, destacou o magistrado.

COM A PALAVRA, JOSÉ EDIMAR BRITO MIRANDA

A reportagem está tentando localizar a defesa de José Edimar Brito Miranda. O Governo do Tocantins não retornou o contato. O espaço está aberto para manifestação.