‘Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do homem mais honesto do país?’

‘Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do homem mais honesto do país?’

Em carta histórica, redigida de próprio punho no dia em que completa um ano atrás das grades da Lava Jato, Palocci ataca Lula e afirma que ex-presidente ‘dissociou-se definitivamente do menino retirante para navegar no terreno pantanoso do sucesso sem crítica’

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Luiz Vassallo

26 Setembro 2017 | 19h58

Palocci e Lula. FOTO DIGITAL: CELSO JUNIOR/AE

O ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda e Casa Civil/Governos Lula e Dilma) desferiu o mais pesado ataque de um companheiro do PT ao ex-presidente Lula. Após o depoimento devastador perante o juiz federal Sérgio Moro, em 6 de setembro, em que incriminou o velho aliado dos primórdios da agremiação, Palocci escreveu nesta terça-feira, 26, uma carta histórica à direção do partido. Hoje, 26, faz um ano que Palocci foi preso na Operação Lava Jato.

Por suas acusações a Lula, o ex-ministro foi suspenso do PT pelo prazo de 60 dias, em decisão do Diretório Nacional do partido, e submetido a um processo disciplinar da legenda em Ribeirão Preto. Palocci foi ao ataque, com a carta de quatro páginas e assinatura de próprio punho.

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O documento é endereçado à presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann.

Palocci desafia Lula. “Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do homem mais honesto do país enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto (!!) são atribuídos a Dona Marisa?”, reagiu.

Palocci escreveu que ‘sabia o quanto seria difícil passar por tantos desafios políticos sem qualquer desvio ético’.

“Sei dos erros e ilegalidades que cometi e assumo minhas responsabilidades”, admite. “Mas não posso deixar de destacar o choque de ter visto Lula sucumbir ao pior da política no melhor dos momentos de seu governo.”

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No interrogatório a Moro, Palocci disse que Lula fechou um ‘pacto de sangue’ com a Odebrecht – em troca da superpropina de R$ 300 milhões para o partido e para ele próprio, o então presidente teria propiciado facilidades para a empreiteira nos governos petistas.

Na carta, o ex-ministro disse. “Com o pleno emprego conquistado, com a aprovação do governo a níveis recordes, com o advento da riqueza (e da maldição) do pré-sal, com a Copa do Mundo, com as Olimpíadas, ‘o cara’ nas palavras de Barack Obama, dissociou-se definitivamente do menino retirante para navegar no terreno pantanoso do sucesso sem critica, do “tudo pode”, do poder sem limites, onde a corrupção, os desvios, as disfunções que se acumulam são apenas detalhes, notas de rodapé no cenário entorpecido dos petrodólares que pagarão a tudo e a todos.”

Palocci afirma ter presenciado ‘o desmonte moral da mais expressiva liderança popular que o país construiu em toda nossa história’.

Na carta, Palocci afirma que recebeu ‘as notícias de abertura de procedimento ético em razão das declarações no interrogatório judicial ocorrido no último dia 6 de setembro de 2017’. O ex-ministro enumerou sete respostas ao PT.

Em uma delas, afirmou estar ‘disposto a enfrentar qualquer procedimento de natureza ética no partido sobre as ilegalidades’ que cometeu durante os governos do partido.

“Ressalto que minha principal motivação nesse momento é que toda a verdade seja dita, sobre todos os personagens envolvidos. Sob o ponto de vista politico, estou bastante tranquilo em relação a minha decisão. Falar a verdade é sempre o melhor caminho. E, neste caso, não posso deixar de registrar a evolução e o acúmulo de eventos de corrupção em nossos governos e, principalmente, a partir do segundo governo Lula.”

COM A PALAVRA, LULA

“Os ataques indevidos feitos ao ex-Presidente Lula por Palocci devem ser interpretados como mais passo que ele dá com o objetivo de tentar destravar sua delação para receber benefícios – que vão desde a sua saída da prisão até o desbloqueio de seus bens. O depoimento prestado por Palocci no dia 06/09 é repleto de contradições com depoimento por ele prestado em maio deste ano e, ainda, com depoimentos prestados por outras testemunhas. O documento emitido hoje segue na mesma direção”.

A respeito das declarações prestadas pelo ex-ministro Antonio Palocci em depoimento à Justiça Federal na quarta-feira, 6 de setembro, a Assessoria de Imprensa da presidenta eleita Dilma Rousseff esclarece:

1. O senhor Antonio Palocci falta com a verdade quando aponta o envolvimento de Dilma Rousseff em supostas reuniões de governo para tratar de facilidades à empresa Odebrecht, seja durante o mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou no primeiro governo dela. Tais encontros ou tratativas relatadas pelo ex-ministro jamais ocorreram. Relatos de repasses de propinas também são uma mentira.

2. Todo o conteúdo das supostas conversas descritas pelo senhor Antonio Palocci com a participação da então ministra Dilma Rousseff – e mesmo quando ela assumiu a Presidência – é uma ficção. Esta é uma estratégia adotada pelo delator em busca de benefícios da delação premiada.

3. O episódio em que cita um inacreditável benefício à Odebrecht pelo governo Dilma Rousseff, durante o processo de concessões de aeroportos, mostra que o senhor Antonio Palocci mente.

4. O ex-ministro declarou perante a Justiça Federal que a decisão do governo Dilma de não permitir que um consórcio ou empresa ganhasse mais de um aeroporto foi criada pela presidenta eleita para beneficiar diretamente a Odebrecht. Isso é uma mentira!

5. Tal decisão foi tomada pelo governo para gerar concorrência entre as empresas concessionárias de aeroportos. Buscou-se evitar que, caso uma empresa tivesse a concessão de dois aeroportos, priorizasse um em detrimento do outro. O governo Dilma buscava atrair mais empresas para participar do sistema aeroportuário, garantindo que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), como órgão regulador, tivesse mais parâmetros para atuar. Mais concorrência, menos concentração.

6. Eis um fato que desmascara as mentiras do senhor Antonio Palocci. A empresa Odebrecht, que ganhou a disputa junto com o grupo Changi, pagou R$ 19,018 bilhões pela outorga do Galeão. Sem dúvida, é a maior outorga paga por aeroportos no Brasil, o que afasta a acusação de beneficiamento indevido declarada por Palocci.

7. O quadro abaixo demonstra que a Odebrecht foi responsável pela maior outorga paga ao Governo para o direito de explorar apenas um dos seis aeroportos cujas concessões foram feitas pelo governo Dilma:

CONCESSÕES DE AEROPORTOS NO GOVERNO DILMA

São Gonçalo do Amarante, Natal (RN)

Grupo vencedor: Consórcio InfrAmerica – Infravix (50%) + Corporación America (50%)

Estimativa de investimentos: R$ 650 milhões

Outorga: R$ 170 milhões

Guarulhos

Grupo vencedor: Invepar (90%) + ACSA (10%)

Estimativa de investimentos: R$ 4,6 bilhões

Outorga: R$ 16,213 bilhões

Viracopos

Grupo vencedor: Consórcio Aeroportos Brasil – Triunfo (45%) + UTC (45%) + Egis (10%)

Estimativa de investimentos: R$ 8,7 bilhões

Outorga: R$ 3,821 bilhões

Brasília

Grupo vencedor: Consórcio InfrAmerica – Infravix (50%) + Corporación America (50%)

Estimativa de Investimentos: R$ 2,8 bilhões

Outorga: R$ 4,501 bilhões

Galeão

Grupo vencedor: Odebrecht (60%) + CHANGI (40%)

Estimativa de investimentos: R$ 5,65 bilhões

Outorga: R$ 19,018 bilhões

Confins

Grupo vencedor: CCR (75%) + Munich/Zurich (25%)

Estimativa de investimentos: R$ 3,5 bilhões

Outorga: R$ 1,1 bilhão

 

8. Eis os fatos. A ficção criada pelo senhor Antonio Palocci não se sustenta. A Odebrecht pagou 300% a mais pelo direito de explorar o aeroporto do Galeão. Nenhuma empresa desembolsou tanto. Que benefício ela obteria do governo Dilma Rousseff pagando a mais? Qual a lógica que sustenta o relato absurdo do ex-ministro?

9. A lógica que move o senhor Antonio Palocci é a mesma que acomete outros delatores presos por longos períodos. A colaboração implorada é o esforço de sobrevivência e a busca por liberdade. Isso não significa que se amparem em fatos e na verdade. É um recurso desesperado para se livrar da prisão. Em outros períodos da história do Brasil, os métodos de confissão eram mais cruéis, mas não menos invasivos e implacáveis.

 

ASSESSORIA DE IMPRENSA
DILMA ROUSSEFF

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