Dida Sampaio/AE
Dida Sampaio/AE

PF gravou conversas do PSDB no Acre durante campanha de 2010

'Estado' teve acesso a escutas telefônicas que revelam detalhes da campanha de Tião Bocalon

ANDRÉA JUBÉ VIANNA / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2011 | 03h06

A Polícia Federal grampeou o comitê eleitoral do PSDB no Acre na campanha eleitoral de 2010. As escutas telefônicas às quais o Estado teve acesso revelam detalhes da campanha do candidato tucano ao governo, Tião Bocalon, como definição de agendas e requisição de material de propaganda. Até conversas com a coordenação nacional de José Serra à Presidência foram interceptadas.

A PF confirmou ontem que, de fato, um telefone do diretório do PSDB no Acre foi grampeado porque, segundo o órgão, estava em nome da deputada Antônia Lúcia (PSC-AC), alvo de inquérito por uso de caixa 2 e fraude eleitoral. Segundo a PF, muitas ligações para o comitê ou originárias desse número caíram na interceptação. Na versão da PF a escuta foi, portanto, indireta. A deputada nega que tenha cedido o telefone ao comitê.

Antônia Lúcia (PSC-AC), hoje deputada federal, foi coligada aos tucanos e adversária do candidato Tião Viana (PT), governador eleito do Acre.

Num dos diálogos, o secretário-geral do PSDB no Acre, Frank Lima, reclama a uma das coordenadoras nacionais da falta de material de campanha de Serra. "PSDB, Zeli, bom dia", atende a secretária do comitê. "Por favor, o Frank Lima está? É Silvana Rezende, da coordenação da campanha do Serra em São Paulo", apresenta-se a interlocutora. "Eu precisava de muito santinho, de muito adesivo, eu tenho cento e porrada de candidato (sic) estadual aqui, eles me pedem material do Serra, eu sou obrigado a dizer que não tenho", reclama Lima.

Em seguida, ele admite que recebeu uma remessa pequena de material, "do tamanho de uma caixa de leite". Silvana tenta mostrar bom humor e reconhece: "Se demorar demais, chega depois da eleição".

Em outro trecho, ele aponta falhas de comunicação e critica a vice-presidente do PSDB: "Temos que ir pro boca a boca, pro corpo a corpo (…) temos uma coordenadora do Norte que é a (senadora) Marisa Serrano, que não sabe nem onde fica Rondônia".

Reação. "É uma denúncia muito grave. Vamos reagir com certeza a qualquer grampo, a qualquer pretexto, no Acre ou em qualquer lugar. A Polícia Federal terá que esclarecer o seu papel nesse episódio", disse o presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE). O dirigente tucano afirmou que vai pedir esclarecimentos ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Por meio das interceptações, era possível monitorar a agenda de Tião Bocalon e acompanhar cada movimento do candidato. Num dos diálogos mais pitorescos, a PF captou até o almoço da equipe tucana. "Cozinha Tropical". "Seu Nonato, o senhor manda 15 marmitas pro PSDB hoje."

São mais de 360 horas de interceptações telefônicas, captadas durante 15 dias de campanha no primeiro turno. As conversas relativas à deputada Antônia Lúcia foram consideradas ilegais e anuladas pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Acre, em julgamento ocorrido em 19 de outubro. A PF informou que todas as conversas que não tinham relação com o crime investigado foram excluídas do relatório final do inquérito, mas não podiam ser eliminadas dos autos. A lei prevê que sejam preservadas para investigações futuras em caso de abuso dos policiais.

Segundo a PF, todos os telefones que tiveram conversas grampeadas estavam no nome da deputada e as interceptações foram deferidas pela Justiça e submetidas à fiscalização do MP.

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