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Polícia faz busca na Uefa por contratos com empresa suspeita de corrupção

Os policiais cumpriam mandado da Justiça suíça, que investiga os documentos contidos nos chamados 'Panama Papers'

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S. Paulo

06 de abril de 2016 | 16h04

GENEBRA – A Polícia Federal da Suíça fez uma operação de busca e apreensão nesta quarta-feira, 6, na sede da Uefa e o mundo do futebol volta a ser alvo de suspeitas, apesar da mudança na gestão do esporte. 

A operação ocorreu depois que foi revelado que o novo presidente da Fifa, Gianni Infantino, foi atingido pelas revelações dos documentos sigilosos sobre a estrutura de empresas offshore no Panamá. O novo comandante da entidade máxima do futebol passou a ser alvo de forte pressão, menos de dois meses depois de assumir o cargo prometendo "virar a página da corrupção" e "restaurar a credibilidade do futebol". 

Também nesta quarta, um dos membros do Comitê de Ética, o uruguaio Juan Pedro Damiani, renunciou diante da revelação de que ele também manteve negocios com dirigentes sob investigação. 

Documentos vazados da consultoria Mossack Fonseca revelam contratos assinados pela Uefa, usando paraísos fiscais, enquanto o diretor jurídico da entidade era justamente Infantino, hoje o homem que promete limpar o futebol da corrupção em que está mergulhado. 

Segundo a própria Uefa, a polícia solicitou os contratos envolvendo a entidade e a televisão do Equador, Teleamazonas. A Uefa também garantiu que está colaborando com as investigações, enquanto Infantino apontou que está disposto a contribuir no inquérito. "Estou determinado a restaurar a credibilidade do futebol", insistiu.

Mas, no Ministério Público da Suíça, a informação oficial era de que a operação foi "motivada por uma suspeita de gestão criminosa" relacionada com direitos de TV. Para a procuradoria, a revelação dos jornais sobre Infantino contribuiu para "complementar as descobertas de uma maneira decisiva".

Infantino também passou a ser alvo de forte pressão, com os deputados ingleses Damian Collins e o Clive Efford. Eles exigiram a abertura de investigações no Comitê de Etica da Fifa em relação às descobertas. Na Fifa, porém, o Comitê se recusou a comentar o caso. 

Os dados foram revelados pelo jornal The Guardian e confirmados pelo Estado, que também obteve cópias dos documentos. A Uefa rejeitou qualquer irregularidade e Infantino, num comunicado oficial, diz “não aceitar” as insinuações de que ele tenha cometido irregularidades. Mas os contratos envolvem empresas com dirigentes sob suspeita pelo FBI. 

Em 2015, a Uefa declarou que jamais manteve negócios com os empresários detidos. Mas, agora, os papeis revelados pela imprensa apontam para uma outra realidade. 

Segundo os contratos, a Uefa vendeu direitos de transmissão de seus jogos para a América do Sul. Mas os direitos foram dados para a empresa argentina Cross Trading, uma subsidiária da Full Play, empresa no centro do escândalo de corrupção da Fifa. Seu dono, Hugo Jinkis, está em prisão domiciliar hoje na Argentina por distribuir propinas pela região em troca de contratos.

Em 2006, sua empresa revendeu os direitos adquiridos de Infantino por tres vezes o preço obtido para uma empresa do Equador, a Teleamazonas, para que tivesse os direitos para a Liga dos Campeões entre 2006 e 2009.

Para fechar o acordo, a Cross Trading assinou o contrato com a Uefa, passando justamente por Infantino. A empresa, porém, tem seu registro na ilha de Niue, no Oceano Pacífico. A mesma empresa ainda assinou contratos para a Euro 2016 com a Traffic Sport, do brasileiro José Hawilla. 

Em resposta, a Fifa insiste que esse é um caso para que a Uefa esclareça. Na Uefa, a entidade aponta que "ninguém em 2006 poderia imaginar" que a Full Play poderia estar envolvida no escândalo de corrupção na Fifa. A entidade também garantiu que o contrato foi fechado depois de um "processo aberto e competitivo" e que a Teleamazonas comprou os direitos oferecendo 20% a mais que a concorrente.

Infantino assumiu a Fifa no final de fevereiro, prometendo virar a página da corrupção que mergulhou a entidade ao seu pior momento em 110 anos de história. Nesta quara, além de uma resposta dura, o novo presidente da Fifa teve o apoio da Uefa. A entidade indicou que Infantino assinou o contrato "apenas por ser um dos diretores com poderes de fechar contratos na época". A entidade também garante Infantino jamais negociou com as partes citadas. 

Mas, segundo os documentos, ele participou da venda dos direitos de transmissão da Liga dos Campeões, Copa do Uefa e Supercopa para os mercados sul-americanos. 

Essa não foi a primeira vez que a Fifa apareceu nos documentos do Panamá. Michel Platini, ex-vice-presidente da Fifa, também teve seu nome registrado com empresas offshore. 

 

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