Ziegler nega que tenha falado em genocídio

Depois de gerar polêmica em sua passagem pelo Brasil, o relator da ONU para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, negou que tenha dito à imprensa brasileira que o governo federal esteja cometendo "genocídio". "Eu nunca disse isso e seria um absurdo se eu tivesse mencionado tal frase", afirmou Ziegler ao Estado. Segundo as declarações atribuídas à Ziegler quando ainda estava no Brasil, a fome no País seria um genocídio. O problema é que, de acordo com o direito internacional, o conceito de genocídio apenas pode ser aplicado em referência a um ato intencional de um governo contra uma parcela da população. "Eu estava falando em termos gerais, e não sobre o Brasil", explicou Ziegler, já de volta à Genebra. Depois da publicação de suas declarações, Ziegler afirma ter mantido contatos constantes com o Itamaraty, que pediu esclarecimentos sobre a utilização do conceito de genocídio. "Entendo a preocupação do Itamaraty, pois teria sido um absurdo falar em genocídio no Brasil", disse o relator da ONU. Ziegler ainda disse compreender as críticas feitas pelo governo depois que suas declarações foram publicadas. "É um abuso o que fizeram com minhas declarações", completou o relator. Ziegler, porém, não nega que tenha dito que o número de famintos entre a população brasileira seja "um escândalo, especialmente em uma País com a riqueza do Brasil". "Apenas mencionei os dados que me foram passados, tanto pelo governo como pela sociedade civil", disse. Segundo o governo, existiriam cerca de 23 milhões de famintos no Brasil, enquanto a Igreja Católica afirma que o número é bem maior: cerca de 55 milhões de pessoas. Tentando amenizar suas críticas ao País, Ziegler elogiou os programas sociais do governo e até mesmo a política econômica de Fernando Henrique Cardoso, que segundo ele, possibilitou que o País voltasse ao caminho do desenvolvimento. Mesmo assim, o relator reconhece: "Isso ainda não é suficiente". Hoje, a ONU deverá soltar uma nota oficial à imprensa mundial negando as delcarções de Ziegler. Além disso, uma conferência de imprensa será convocada em Genebra para explicar a confusão formada. A notícia chegou às páginas do New York Times do último dia 19, o que despertou o interesse de muitos países.Também nesta quarta-feira, Jean Ziegler terá um encontro com o secretário de Direitos Humanos do Brasil, Paulo Sérgio Pinheiro, na sede da ONU em Genebra. Um dos objetivos do encontro sera debater o relatório que Ziegler irá preparar sobre sua visita de vinte dias ao País e que será apresentado no final do ano à Assembléia Geral da ONU. Falando ao Estado, Pinheiro garante que o governo não faz objeções às críticas feitas pelos relatores da ONU. " Já tivemos seis relatores da ONU no Brasil, mas o que achamos que é indevido é falar de genocídio no País. Eu não utilizo esse termo nem mesmo para o Burundi", afirma o secretário, que também atua como relator da ONU. Sobre a possibilidade de voltar ao Brasil, Ziegler afirma que seria "uma honra".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.