Zerando tudo

Inventar realidades rende barulho na mídia, mas não substitui o essencial

J. R. Guzzo, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 03h00

O ex-presidente Lula apareceu de novo no noticiário oferecendo-se ao público, pelo que foi possível entender, para restaurar a democracia no Brasil, colocar comida na mesa do povo, em vez de bala de revólver, e devolver ao País a prosperidade, bem estar e ascensão social que, segundo ele, existiam durante os 13 anos e meio dos governos do PT. Falou como quem tem certeza de que vai ser candidato a presidente da República nas próximas eleições. Lula deve saber o que está dizendo.

O Supremo Tribunal Federal, que substituiu o PT e seus amigos como o mais agressivo partido de oposição no Brasil, dá a impressão de estar querendo, acima de qualquer outra coisa, que Jair Bolsonaro caia fora da Presidência – já, se for possível, ou pelo menos em 2022, quando ele vai tentar a reeleição.

Caso não deem certo a anulação das eleições de 2018, o processo por ter demitido um diretor da Polícia Federal, a acusação de genocídio e outras propostas como essas, os ministros do Supremo parecem achar que Lula é o meio mais eficaz para chegar lá. Ou, vai ver, acham mesmo que a melhor coisa para o Brasil é voltar aos tempos de Lula & Dilma.

De um jeito ou de outro, Lula está se mostrando seguro que as suas duas condenações por corrupção e lavagem de dinheiro, a primeira já confirmada em três instâncias e por nove juízes diferentes, a segunda confirmada em duas, vão ser anuladas e a sua ficha ficará limpa para concorrer em 2022. É um fenômeno. Empreiteiros imensos, diretores de estatais e outros titãs da ladroagem nacional, incluindo nada menos que um ex-ministro de Estado, hoje em prisão domiciliar, confessaram crimes de corrupção num volume sem precedentes na história nacional. Mais: devolveram milhões em dinheiro roubado. Por acaso alguém devolve por livre e espontânea vontade dinheiro que não roubou?

Toda essa gente não praticou seus crimes no Polo Sul; durante mais de dez anos seguidos operaram nos salões íntimos dos governos de Lula e Dilma. Mas, pelo jeito com que o STF parece estar vendo as coisas, o culpado é o juiz Sergio Moro. Ele foi “parcial”, dizem – então tem de zerar tudo, mesmo o que não foi ele, Moro, quem decidiu, para salvar as nossas “instituições”. Ou seja: roubaram como nunca no governo Lula, mas Lula não tem culpa de nada. Será muita sorte, na verdade, se a coisa ficar por aí. O STF ainda pode acabar dando ordens para que o contribuinte pague alguma indenização milionária ao ex-presidente e sabe Deus a quanta gente além dele. Por que não? Já não existe o “Bolsa-Ditadura”? Então: é só criar o “Bolsa Moro”.

Uma história, porém, é contar com o mais eficiente escritório de advocacia criminal que existe hoje no Brasil – o STF. Outra, já bem mais complicada, é ganhar uma eleição para presidente da República. Uma das bandeiras que Lula mostrou nessa sua primeira salva de artilharia, por exemplo, foi a tese de que Bolsonaro matou 130.000 pessoas na Covid. Essas ideias são um perigo. Se ficar até 2022 repetindo isso, corre o risco de reviver sua campanha presidencial de 1994, quando passou o ano inteiro dizendo que o Plano Real era uma farsa e que a inflação estava cada vez pior; perdeu já no primeiro turno, algo que nem Geraldo Alckmin conseguiu.

Inventar realidades que não existem rende barulho na mídia, mas não substitui o essencial: Lula terá de explicar com clareza para os eleitores o que, exatamente, ele vai fazer de diferente do que Bolsonaro está fazendo – e convencer umas 70 milhões de pessoas de que essas mudanças, na prática, vão melhorar a vida de cada um. Ninguém está pedindo a “volta da democracia”, nem da “ascensão social”. Não é por aí.

*JORNALISTA

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