Yeda reitera promessas, mas não anuncia projetos

A tucana Yeda Crusius assumiu o governo do Rio Grande do Sul nesta segunda-feira reiterando a promessa de fazer um ajuste estrutural, modernizar o setor público e zerar o déficit fiscal de R$ 2,3 bilhões para devolver ao Estado, no futuro, a capacidade de investir em infra-estrutura, educação, saúde e segurança.No discurso na Assembléia Legislativa, Yeda prometeu diálogo permanente com a casa, numa tentativa de desfazer o mal-estar criado na sexta-feira, quando diversos aliados votaram contra um pacote de projetos que aumentava alíquotas de impostos e se queixaram de não terem sido consultados. Ao mesmo tempo, destacou que numa posição pública de comando o imperativo ético do coletivo pode ficar acima de convicções individuais.Apesar de repetir o discurso de campanha, Yeda não anunciou as medidas que tomará a partir desta terça-feira. Pelas entrevistas que deu no final de semana, depois de ver a Assembléia Legislativa rejeitar o pacote que o então governador Germano Rigotto (PMDB) havia apresentado a seu pedido, Yeda deixou claro que cortará despesas e adotará um regime de caixa, submetendo todos os pagamentos à disponibilidade de receitas e admitindo até mesmo atrasar vencimentos do funcionalismo se a arrecadação for insuficiente.As solenidades de posse e de transmissão do cargo lotaram o plenário da Assembléia Legislativa e o Palácio Piratini de autoridades, políticos e seus familiares e amigos, mas tiveram pequena participação popular, inferior inclusive à mobilização da Polícia Militar, que destacou 200 agentes para cuidar da segurança na praça Marechal Deodoro, quase vazia. Em 1999, na posse de Olívio Dutra (PT), e em 2003, na posse de Germano Rigotto (PMDB), havia milhares de pessoas no local.Propostas Dias antes de tomar posse como primeira governadora do Rio Grande do Sul, a tucana propôs um conjunto de medidas fiscais e administrativas que demonstraram sua determinação de enfrentar com mão de ferro o déficit público do Estado, mas também deram a medida das resistências que enfrentará. Com um programa de governo baseado na defesa de um "novo jeito de governar" e de um "choque de gestão" como medidas necessárias para organizar as finanças do Estado, a economista de 62 anos venceu as eleições estaduais polarizadas pelo debate sobre os problemas de caixa e a crise da economia gaúcha. O resultado da transposição do programa eleitoral para medidas concretas de gestão não foi bem aceito e Yeda enfrentou as primeiras resistências antes mesmo de tomar posse. Com um déficit anual estimado em 2,3 bilhões de reais, a governadora tem pressa em viabilizar sua administração. AnálisePara o cientista político, Francisco Ferraz, a hipótese de protelar o enfrentamento da crise da economia gaúcha não condiz com o perfil da nova governadora e poderia colocar em risco a própria sobrevivência do governo. "A governadora mostra claramente que está disposta a enfrentar a crise desde o primeiro dia de governo para ter tempo de reverter o desgaste. A alternativa de ir levando poderia fazer com que morresse à míngua politicamente", disse Ferraz à Reuters. Ferraz foi reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no período em que Yeda Crusius era diretora da Faculdade de Economia. Para o cientista político, a experiência profissional e política da tucana garantirão o controle sobre a futura administração. "Yeda fará um governo determinado por um centro político que será ela. O governo é dela", disse Ferraz. A composição do secretariado demonstra a preocupação de Yeda de incorporar os principais partidos que aderiram à candidatura tucana, mas não garante apoio irrestrito dos aliados. Da equipe anunciada, dois futuros secretários desistiram após aceito o convite e outros dois se rebelaram contra o pacote econômico feito pela governadora. A reação não provocou mudanças nos planos de Yeda. "O governo terá a marca dela. Os partidos aliados terão que se ajeitar. Não será um governo de condomínio", completou Ferraz.

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