Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Weintraub se tornou integrante do grupo ‘biológico’, o dos filhos de Bolsonaro

De saída do MEC, economista, que deixou rastro de destruição na Educação, é indicado para cargo de pompa no Banco Mundial

Rosângela Bittar, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2020 | 18h50

O economista Abraham Weintraub deixa um rastro de destruição na sua passagem pelo MEC. Seja por ação, por omissão ou pelo estado de permanente desassossego em que manteve a comunidade acadêmica e científica. Como se pode constatar, a gota d’água, ou melhor, a tromba d’água que finalmente o derrubou, nada tinha a ver com Educação, mas com o comportamento esdrúxulo. Da Educação, não chegou a tratar.

O presidente pode aplicar o modelo da Saúde e insistir em deixar um ministro interino manobrável. Porém, no caso Weintraub há uma particularidade: vai para o Banco Mundial, de onde poderá manter sua cidadela de ação nas redes sociais, com muito mais tempo disponível, e poderá provocar à vontade, fazer campanha eleitoral, e atuar em dobradinha com o guru Olavo de Carvalho. Conseguiu um cargo de pompa e circunstância porque tornou-se um forte integrante do grupo “biológico”, o dos filhos Bolsonaro, impropriamente apelidado de “ideológico”, pois a ideologia passou longe de todos eles. 

Pode-se dizer que o ministro caiu de sua própria estatura. Não se elevou à grandeza dos desafios da Educação. A reforma do ensino médio, aguardada por vinte anos e aprovada no governo Temer, ficou no papel. Os gargalos do Enem não foram rompidos. A qualidade do ensino básico deu marcha à ré. O processo de valorização do magistério fez uma curva de 360 graus. A universidade foi oprimida, criticada e financeiramente asfixiada. A autonomia, ameaçada. 

A pesquisa e a ciência, desprezadas. A crise sanitária mundial atingiu frontalmente a Educação, e o ministro da área não tomou conhecimento da principal saída imposta à área pela circunstância, o ensino à distância.

A facilidade e a insistência com que conjuga o verbo odiar revelaram o seu fascínio pela beligerância gratuita.

Weintraub caiu não por falta de saídas para o seu desastre. Alguns educadores tentaram socorrê-lo e viram em Weintraub talento analítico, raciocínio, conhecimento de números. No entanto, sempre se mostrou incapaz de capitalizar esses possíveis trunfos. Pelo contrário. Sua linguagem chula e sua avaliação tola foram tão agressivas e grosseiras que ele próprio se desqualificava. 

Weintraub não entrou para o governo como economista, condição que agora lhe serve de salvação. Sai, contudo, sem esclarecer o enigma sobre as razões que o levaram a inviabilizar o exercício do imenso espaço de poder que é o MEC. 

Como tudo no governo é ambíguo, não está claro o que mais pesou na demissão e na transferência para Washington. Se um gesto de piedade para socorrer um companheiro ou solidariedade a uma liderança em apuros, para ser mais tarde reabilitado. Hipótese nada absurda num governo absurdo. Weintraub pode ter cavado o espaço de candidato a 05.

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