Weintraub fugiu? Analistas comentam saída do ex-ministro do País em meio a investigações

'Como alguém que estava sendo dispensado de sua função no governo usa isso para uma viagem não-oficial?', questiona o cientista político José Álvaro Moisés; veja mais análises

Matheus Lara - O Estado de S.Paulo

Alvo do Supremo Tribunal Federal, Abraham Weintraub foi para Miami, nos Estados Unidos, no fim da semana passada, horas depois de dizer que precisava deixar o País para não ser preso. Como mostrou o Estadão, ele usou a condição de ministro da Educação para desembarcar nos Estados Unidos e driblar as restrições de viagens para brasileiros em razão da pandemia de covid-19. Horas depois, o governo soltou edição extraordinária do Diário Oficial da União, exonerando-o do cargo

Leia abaixo a opinião de cientistas políticos ouvidos pelo Estadão a respeito da ida de Weintraub para os Estados Unidos.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub Foto: Dida Sampaio/Estadão

Nesta segunda, 22, o agora ex-ministro escreveu no Twitter que recebeu a ajuda de "dezenas de pessoas" para "chegar em segurança aos Estados Unidos".  O Ministério da Educação afirmou que ele chegou aos EUA por Miami e que a viagem foi feita por meio de avião comercial e em classe econômica. Como titular do cargo, tinha direito a passaporte diplomático. Ele deve assumir o cargo de diretor-executivo do Banco Mundial. 

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O ex-auxiliar de Jair Bolsonaro é um dos alvos do inquérito das fake news por ter afirmado, em reunião ministerial, que os 11 ministros do Supremo deveriam ser presos e se referido a eles como “vagabundos”. Weintraub também é investigado pela suposta prática de crime de racismo. Ele publicou em seu Twitter um texto no qual fez uma publicação irônica em relação à China. Substituindo a letra 'r' pela 'l', em alusão ao personagem Cebolinha da Turma da Mônica. O inquérito foi aberto por determinaçãõ do ministro Celso de Mello. Em documento entregue à Polícia Federal, o ministro da Educação negou racismo. 

O que dizem analistas da ciência política sobre a saída de Weintraub do País

José Alvaro Moisés, cientista político e professor da USP:

"O governo Bolsonaro e o ex-ministro Weintraub ainda devem uma explicação à sociedade dos motivos que levaram esse último a sair tão apressadamente do País. Quem não tem nada a temer não age assim. E, quanto ao governo, tudo indica que deu apoio à tentativa do ex-ministro de escapar dos esclarecimentos que deve à Justiça. Os atos e decisões não parecem favorecer o cumprimento da lei.

A questão do voo e do uso ou não de passaporte diplomátivo não é apenas formal. Ele era ainda ministro, mas não foi a Miami em missão oficial, foi movido por interesses pessoais. Isso significa que tem uma questâo ética envolvida. Como alguém que estava sendo dispensado de sua função no governo usa isso para uma viagem não-oficial?"

Mariana Batista, cientista política e professora da UFPE: 

"Sobre a ida aos EUA, Weintraub ainda não tinha sido oficialmente exonerado, de forma que o seu passaporte era válido e sua entrada permitida. Contudo, o timing da exoneração foi claramente orquestrado para permitir sua entrada, considerando as restrições impostas pelo governo americano à entrada de brasileiros.

Sobre a motivação da saída do País de forma tão abrupta, acredito haver duas razões complementares. Primeiro, há uma razão pragmática que é a de evitar possíveis ações da Justiça uma vez que o agora ex ministro ainda é investigado. Contudo, essa não pode ser a 'razão expressa', uma vez que colocaria no ex ministro o rótulo de que fugiu da Justiça e, portanto, seria uma imoralidade. Dados que esse é um tema caro do bolsonarismo, a retórica é mais importante.

Aí entra a segunda razão. A saída abrupta ajuda na construção da retórica de que o ex ministro estaria se protegendo de uma perseguição política do STF. Assim, se colocaria na posição de vítima, uma espécie de 'exilado político governista', colocando o STF como inimigo. Enfatizo que a referida 'perseguição política' é um elemento de retórica que compõe o discurso do ex-ministro, não algo concreto. Esse discurso é alinhado ao objetivo constante do governo de manter as bases mobilizadas e contra um suposto inimigo."

Marco Konopacki, cientista político e bolsista na Syracuse University:

"A fuga de Abraham Weintraub é um escândalo, que talvez não tenha ganhado a repercussão devida por conta dos outros escândalos em curso no governo federal. Do ponto de vista administrativo, a saída dele do País, enquanto ainda era ministro, demonstra um ato grave de improbidade administrativa, com a anuência do presidente da República.

Weintraub pode até declarar em sua defesa que viajou aos Estados Unidos para assumir ao cargo que foi indicado ao Banco Mundial, no entanto, na medida em que sua nomeação não havia sido tornada oficial pelo próprio banco, esse não seria um ato jurídico perfeito, pois ele viajou como ministro da Educação na expectativa de ocupar outro cargo. Ou seja, ele usurpou o cargo para benefício próprio, que no caso, era o de se evadir das restrições sanitárias impostas pelos Estados Unidos a viajantes brasileiros. 

Do ponto de vista político, a 'fuga' de Weintraub acobertada pelo presidente da República demonstra a completa falta de apreço aos valores da moralidade e imparcialidade exigidos pela função pública. Weintraub usurpou o cargo de ministro da Educação para se promover pessoalmente, zombar de outras autoridades e destilar preconceito. Com o seu desempenho pífio à frente da pasta, não formulou nada novo para a política de educação do País, e conseguiu atrapalhar o que funcionava, como o no caso do Enem." 

Kleber Carrilho, cientista político da USP:

"O que podemos ver da saída do Weintraub é que ele tem a intenção de trabalhar no Banco Mundial, mas talvez essa intenção seja a menor de todas. A maior intenção nessa transferência rápida dele para os Estados Unidos é para desenvolver a narrativa de que está sendo perseguido e de que há uma perseguição a pessoas que apoiam o presidente. 

Quando você vê uma cena dessas, é importante para os defensores do presidente e do governo que haja a 'confirmação' de que existe o que eles chamam de 'ditadura do Judiciário', do STF. Mais do que a fuga em si, o que vale é a narrativa sobre ela, essa 'confirmação' de que há um ambiente de ataque ao presidente e consequentemente às pessoas mais próximas."

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Matheus Lara - O Estado de S.Paulo

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