Wanderley dos Santos vai assumir Casa de Rui Barbosa

Com indicação de cientista político, ministra Ana de Hollanda tenta encerrar crise envolvendo a pasta devido às declarações de Emir Sader

Wilson Tosta, de O Estado de S. Paulo

03 de março de 2011 | 23h00

RIO - Um dos maiores cientistas políticos brasileiros, o pesquisador Wanderley Guilherme dos Santos assumirá a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa decidido a lhe devolver a tranquilidade – que considera abalada pela crise aberta pelas críticas do quase presidente da instituição, sociólogo Emir Sader, à ministra da Cultura, Ana de Hollanda.

 

"Meu plano fundamental é que a Casa volte a ter a sobriedade que sempre a caracterizou", disse ele, em tom cauteloso e sem se referir diretamente a Sader, cuja nomeação foi abortada pela presidente Dilma Rousseff depois que ele, entre outras coisas, chamou Ana de "meio autista". Anunciado oficialmente nessa quinta-feira, 3, pelo Ministério da Cultura como novo presidente, Wanderley Guilherme disse ainda não ter projetos definidos para a fundação, mas garantiu que não fará modificações profundas.

 

"Planos de grandes mudanças teve Juscelino Kubitschek, mas ele podia ter. Eu sou um ser humano bastante consciente da minha limitação e finitude. Até porque tenho que ter uma intimidade com a Casa que não tenho", afirmou. As declarações cuidadosas e a postura modesta são o inverso de atitudes de Sader, que, em entrevista à Folha de S. Paulo, disse querer transformar a Casa de Rui Barbosa em um espaço de discussão do Brasil e criticou Ana de Hollanda e o ex-ministro da Cultura Gilberto Gil.

 

‘Projeção problemática’. Com o convite, feito na quarta-feira, 2, por telefone, a ministra tenta encerrar a crise que envolveu o ministério desde a divulgação das declarações de Sader. Por seu perfil, o cientista político não pode ser considerado representante da "direita" a quem o sociólogo atribui sua queda.

 

Para o novo escolhido, a polêmica deu à Casa de Rui Barbosa uma "projeção problemática em excesso" para a "sobriedade que caracteriza a instituição". Para ele, é preciso dar "continuidade a um trabalho extremamente bem considerado e bem respeitado" da Casa - outro sinal contrário ao de Sader, que prometia mudanças profundas. "O que há a fazer é simplesmente continuar o próprio trabalho da tradição", ressaltou o cientista político, que considera os profissionais da fundação "o melhor celeiro para a continuidade e para a inovação" da atividade da Casa.

 

"A fundação é uma instituição dentro de um ministério bastante complexo", prosseguiu. "É uma instituição que, para seus funcionários e pesquisadores, é 100% da vida deles, claro, mas dentro do ministério e de um ministério dentro de um governo, (a repercussão da polêmica) é uma coisa fora de proporção. Isso atrapalha, certamente atrapalha, a tranquilidade das pessoas que lá trabalham", resumiu.

 

"É uma instituição que conheço, mas preciso me familiarizar. Conheço como admirador e frequentador, agora é diferente, preciso conhecer por dentro."

 

Wanderley Guilherme disse conhecer a ministra há muito tempo e ter-se sentido "bastante gratificado" pelo convite. Segundo ele, a ministra já marcou conversa para fazer uma discussão mais aprofundada sobre a Casa. Graduado em Filosofia e professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Wanderley Guilherme tem 74 anos. Também integrou o Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro, o Iuperj.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.