Wagner defende troca de comando na presidência do PT

Jaques Wagner: governador da Bahia[br]Governador da Bahia declara apoio ao deputado José Eduardo Martins Cardozo, que desafia Ricardo Berzoini

Entrevista com

Carlos Marchi, O Estadao de S.Paulo

09 de novembro de 2007 | 00h00

O governador Jaques Wagner (PT), da Bahia, disse que apóia a candidatura do deputado José Eduardo Martins Cardozo (SP) à presidência do PT porque ele será capaz de oxigenar o partido. Na disputa, em 2 de dezembro, Martins Cardozo vai enfrentar o atual presidente, deputado Ricardo Berzoini (SP), que tem apoio de Lula. Ouça a entrevista com o governador Jaques WagnerSegundo nome do PT em peso eleitoral, Wagner disse ao Estado que daqui por diante os partidos vão acatar com naturalidade a alternância, mais fácil agora que as forças políticas expressivas já ocuparam o poder. Ele pediu regras claras para a disputa eleitoral de 2010, com o fim da reeleição e a ampliação dos futuros mandatos para cinco anos.Wagner, que foi articulador do governo no delicado momento do escândalo do mensalão, em 2005, reconheceu que PSDB e PMDB "deram uma contribuição ao País". Elogiou o Plano Real, como uma construção da alternância: "O bom momento que vivemos começou há 13 anos, com o Plano Real." Mas criticou a reação cega à prorrogação da CPMF, afirmando que a oposição está sem discurso. Eis a entrevista:Que perfil o PT terá em 2010?Vamos ter a nosso favor a constatação de que a economia tem ido bem. Haverá muito respeito ante essa conquista e também quanto à nossa responsabilidade com a área fiscal. Certamente vamos propor o aprofundamento do nosso projeto para a área social, em especial na saúde, educação e geração de empregos. Esses serão nossos grandes trunfos. A cara do PT em 2010 será a de um partido mais maduro, testado - com algumas cicatrizes do evento que ocorreu (mensalão), porque essas coisas não se apagarão mais da nossa história -, com a convicção de que nossa marca é o compromisso com a democracia e com a justiça social.Que regras devem valer em 2010?Para mim, o fundamental é ter regras claras. Devemos acabar com a reeleição e criar mandatos de cinco anos para os eleitos em 2010, sem prorrogação dos atuais mandatos.O Brasil está maduro para a alternância do poder, sem maniqueísmo nas disputas políticas?Sem dúvida. A alternância de idéias é a riqueza da sociedade e no Brasil ela será mais fácil porque as forças políticas mais importantes já foram oposição e passaram pelo governo. Depois que você governa e conhece as dificuldades terá passado por um processo de aprendizado para quando estiver de novo na oposição. No fim do primeiro mandato do presidente Lula, eu disse que a democracia brasileira estava mais madura, porque todo mundo já tinha experimentado o poder. Uma vez no governo você vê que as coisas não são fáceis.Alternância pressupõe admitir êxitos de outros no passado, não?Não dá para negar que PSDB e PMDB deram uma contribuição ao País. Ainda agora eu disse que o bom momento que vivemos começou há 13 anos, lá com o Plano Real, não começou com o governo do PT. A gente aprofundou, deu outro foco. Foram 13 anos com alternância no governo sem desmontar um bom plano, que foi o Real.Lula não costuma reconhecer isso.É difícil, é difícil. Nós ainda funcionamos muito na dicotomia. Quando ganhei a eleição, pessoas do PT me diziam: "Bota para quebrar em cima dos caras." Não é fácil mudar esse comportamento. É evidente que meu projeto é diferente do dele, mas não posso dizer que o ex-governador Paulo Souto não fez nada. Na inauguração de uma fábrica, eu disse: "Deus foi generoso comigo. Os outros trabalharam e eu estou vindo cortar o bolo." Sabe quando dá aqueles dez segundos de perplexidade e silêncio, antes do aplauso?Muita gente diz que o governo Lula não tem oposição. Isso é bom?É fundamental ter oposição. A democracia vive disso. A existência da oposição é boa, mesmo que às vezes ela exagere e aborreça. A oposição tem um olhar mais crítico e clínico sobre o que você faz no governo. Não existe governo sem oposição e não existe democracia sem esses dois lados.Mas a oposição não parece estar meio perdida?O problema é que, mesmo passado um ano da derrota eleitoral, alguns líderes da oposição não se acostumaram com a idéia. Passou a eleição, o Serra, o Aécio e o Arruda são governadores. Agora, vamos governar.Por que a oposição endureceu com a emenda da CPMF?Isso é perder a racionalidade. As posturas do Serra e do Aécio estão sendo equilibradas, mas a da bancada do Senado não. Parte da oposição tem dificuldade de entender que não pode artificializar o discurso. Tem dificuldades para definir um discurso. Mas isso é normal. Quando o Plano Real estava dando bons resultados a gente também tinha dificuldades com o discurso. Mas não dá para inventar discurso, porque a sociedade não aceita e o político entra em desespero. Tem horas que a oposição tem de dar uma hibernada. Não dá para bater no governo o tempo todo. Tem gente que fica o tempo todo: "Ladrão, ladrão, ladrão, ladrão." Quando realmente tiver uma coisa comprovável, ninguém vai acreditar. Quem é:Jaques WagnerCursava engenharia na PUC do Rio. Perseguido pela ditadura, abandonou o curso e fugiu para a Bahia em 1964.Líder sindical, acabou eleito deputado federal por três mandatos. Foi líder do PT.Ex-Ministro do Trabalho e coordenador do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, em 2006 foi eleito governador da Bahia.

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