Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Voto de deputados na segunda denúncia teve média de 160 caracteres

Número é menor que o registrado em sessão da primeira denúncia, segundo dados da Câmara

Rodrigo Menegat e Rubens Anater, Especiais para o Estado

30 de outubro de 2017 | 11h54

Levantamento feito pelo Estado com base nas transcrições do Departamento de Taquigrafia da Câmara dos Deputados apontou que, em média, os parlamentares economizaram mais palavras na sessão que barrou a continuidade da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer do que nas ocasiões em que votaram o parecer da primeira e o pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Foram, em média, 162 caracteres contra 190 caracteres da primeira denúncia e, durante a sessão do impeachment, o número atingiu 314. Além disso, a média dos discursos da base de Temer foi 2,5 vezes mais curta que a da oposição.

As palavras mais usadas pela base aliada, segundo as transcrições, foram “emprego”, “estabilidade” e “crescimento”. Já a oposição citou mais os termos “povo”, “quadrilha” e “corrupção”.

O formato conciso surge enquanto os índices de reprovação de Temer batem recordes. Segundo dados de setembro da Confederação Nacional da Indústria (CNI), apenas 3% da população considera o governo Temer bom ou ótimo.

“Os deputados se viram na situação constrangedora de absolver um presidente muito impopular entre seus eleitores. Tarefa difícil, da qual queriam se desvencilhar da maneira mais rápida e discreta possível”, disse o cientista político Maurício Santoro, professor-adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

A votação pela abertura do impeachment de Dilma, em contraste, foi realizada em um domingo, quando a maior parte do eleitorado acompanhava a sessão pela televisão. “Aqueles minutos de justificativa do voto eram uma rara tribuna nacional para muitos deputados, sobretudo os do chamado ‘baixo clero’. Uma oportunidade única para que eles se mostrassem para todo o Brasil”, afirmou.

+++ Veja como foi a votação do impeachment no Senado

Para o cientista político Francisco Paulo Jamil Marques, professor adjunto da Universidade Federal do Paraná, a votação de um processo de impeachment é mais tensa que a de uma denúncia. Outro dado comparativo, aponta o pesquisador, é a distinção das bases aliadas de Dilma e Temer.

“Dilma tinha uma base de apoio escassa, mas barulhenta; a oposição à época era mais numerosa do que a existente hoje, mas também tinha interesse em aparecer por conta da maior visibilidade”, disse Marques. “É natural que o ânimo dos agentes do campo político seja distinto, até porque o acompanhamento por parte da imprensa e dos cidadãos também diminuiu.”

CONTROLE 

As votações das denúncias contra Temer também foram marcadas pelo rigor do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), na hora de controlar o microfone dos parlamentares. Diferente do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB), que presidiu a votação do impeachment em 2016, Maia cortou o microfone em alguns discursos, principalmente na sessão de quarta-feira.

Segundo Marques, a atitude não é por acaso. “A condução de uma sessão que envolve denúncia contra o chefe do Executivo é sempre algo bem planejado. Logo, cercado de estratégias”, diz. Cunha era da oposição e um dos articuladores do impeachment, enquanto Maia é considerado aliado de Temer.

 

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