Votar aos 89 anos

Acabei de votar no colégio Dante Alighieri, vi gente sarada bufando por ter de subir um andar de escadas. "Por que não colocam todas as seções no térreo, que desrespeito!" Partimos em direção ao Madre Alix, para minha mulher votar. Estacionamos o carro na Gabriel Monteiro da Silva, a uma quadra da entrada do colégio e fomos em busca da seção eleitoral. Onze da manhã.Um táxi parou perto de nós, o motorista olhou, não havia vagas mais à frente, apesar dos flanelinhas, essa praga, estarem "orientando" o trânsito. Do táxi desceu uma senhora magra, extremamente frágil, com uma blusinha de lã vermelha e uma bolsa simples pendurada no ombro. Um aparelho de audição no ouvido esquerdo. Na mão direita uma bengala. E ela começou sua caminhada, lenta. Fomos até a seção de Márcia, minha mulher, ela votou e ao regressarmos a velha estava começando a cruzar o portão. Lenta, sem pressa. Ela ficou indecisa diante dos quatro degraus de entrada do colégio, mas viu uma rampa, sorriu:- Ali tem um corrimão! Ainda bem!- Se a senhora quiser, podemos ajudar!- Não quero estorvar ninguém.- Será um prazer.Demos os braços a ela, os quatro degraus foram transpostos, e a levamos até a mesa em que fiscais do TRE informam, dão auxílio. Uma jovem sorriu, cumprimentou-a:- Como vai dona Philomena?- Sabe meu nome?- Sei! A senhora esteve aqui no primeiro turno.- Não vou incomodar. Me arranjo, só me diga onde voto?- A jovem consultou as listas, a velha senhora advertiu:- Philomena com PH, não com F.- Lembro-me bem. Aqui está, seção 230. Philomena Andéri. Ih! A senhora corrigiu:- Andery.Forçando a acentuação final, à francesa.- É no primeiro andar, infelizmente, dona Philomena.- Subo lá.O homem do TRE que estava à mesa levantou-se imediatamente:- Eu a levo.- Deixe-me ver. Esperem, esqueci o número dele. Vocês sabem?O pessoal do TRE disse: - Somos proibidos por lei de dizer qualquer coisa.- Na hora me lembro.Subiu com ela, lentamente, as escadas. Ela dizendo que fazia questão de vir votar, feliz por estar ali, ouvindo mal, um aparelho de audição no ouvido esquerdo. Aos 89 anos, nunca perdeu uma eleição. Fazia três dias que tinha tirado os pinos de uma prótese e não disse uma só palavra contra cada degrau vencido vagarosamente. Ao sairmos, fomos aos PMs da porta e pedimos:- Será que o táxi daquela senhora pode entrar e pegá-la aqui dentro? Se não, ela terá que andar uns 500 metros.Mais do que autorizado, o táxi entrou. Dez minutos depois, dona Philomena desceu rumo ao táxi, feliz por vê-lo ali a dez passos. Piscou para nós, comentou baixinho:- Na hora me lembrei do número dele.Custou alguns minutos para se abaixar e se ajeitar e entrar no táxi. Philomena se foi. Feliz.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.