Volume de manifestantes fortalece pedido de impeachment

Os protestos contra o governo, registrados em todas as regiões do País, estão cercados de expectativas. A possibilidade de um número elevado de manifestantes, inclusive ainda maior do que o registrado em março de 2015, deve acentuar o isolamento político-social de Dilma Roussef e fortalecer o pedido de abertura de impeachment, ainda em fase de apreciação pela Câmara dos Deputados. A intenção dos oposicionistas é precipitar o processo, jogando mais pressão social sobre o Legislativo. A presença oficial de lideranças da oposição, antes rechaçadas por alguns grupos que organizam as manifestações, que já colaboravam na convocação do evento, é uma das novidades destes protestos. 

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S. Paulo

13 de março de 2016 | 16h02

Em São Paulo, o protesto reúne um volume de pessoas impressionante que o coloca, no mínimo, no mesmo patamar da grande mobilização de março de 2015. Congrega diferentes interesses em torno da causa do impeachment, mas também sinaliza para dificuldades de convivência entre seus organizadores, num possível pós-Dilma, ao se observar a presença de organizações minoritárias com feições autoritárias convivendo com outras engajadas na defesa de uma solução democrática.

Todavia, quem circulou pela capital antes da manifestação deparou com situações novas em se tratando de protestos políticos: uma grande empresa, que atua no varejo de alimentação, talvez de olho no mercado oferecido por um evento de massa, criou peça publicitária estimulando a participação nos protestos; vuvuzelas e camisetas com frases antidilma foram vendidas em lojas de comércio popular e até mesmo em lojas de grifes de alto padrão; bonecos pequenos e infláveis com Dilma e Lula com roupas de presidiários foram comercializados em semáforos.

É um clima que mistura o ambiente de uma final de copa do mundo com o de uma grande manifestação política, talvez essas questões vão se constituir como novidades em grandes protestos daqui para frente. Entretanto, o grau de demonização de Dilma, de Lula e do PT, vistos, mesmo que simbolicamente, no comércio desses produtos preocupa e merece reflexão.

O isolamento dos defensores do governo pode ser observado de duas maneiras. A primeira, continua com o discurso que apenas eleitores de Aécio Neves e os endinheirados se engajaram nos protestos. Quem andou pelas ruas pôde observar a diversidade de pessoas quanto a origem social. Se prevaleceu uma ou outra classe é outra história. Os indicadores de popularidade do governo já indicavam a perda de prestígio em todas as camadas sociais. Em várias capitais, parlamentares de partidos da base aliada, inclusive implicados na Lava Jato, estiveram presentes gritando pelo fim de um governo do qual seus partidos participam e se beneficiam.

A segunda maneira refere-se ao fato de o governo ter poucas chances de se estabilizar politicamente. Basta olhar a conduta dos dois principais partidos aliados, excluindo o PT. O PMDB, que ampliou sua presença em ministérios, fixou prazo para desembarcar na expectativa de ver Temer presidente com a saída antecipada de Dilma. O PSD, apesar de manter Kassab como ministro, vem marchando, muitas vezes, com a oposição. Como 2016 é ano eleitoral, e o governo está sitiado também em razão da crise econômica, o futuro imediato de Dilma, de Lula e do PT, após os protestos de 13/03, ficaram ainda mais sombrios. 

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política na FGV-SP

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