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Volta às aulas

A Copa acabou e, com ela, o recreio dos candidatos. Hora de separar quem fez a lição de casa de quem, como o time de Felipão, quer ganhar no grito, no choro ou na improvisação.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2014 | 02h02

Não adianta ter sido o melhor do jogo de queimada, ou ter marcado todos os gols na pelada do intervalo das aulas. Quem não estudou para a prova vai repetir de ano - ao menos dois, até a próxima eleição. O que acontece no pátio fica no pátio. E o que acontece no estádio fica no estádio.

A Copa nunca influenciou uma eleição presidencial brasileira. Nem ajudou nem atrapalhou. Mas agora é diferente, dizem uns. "Foi 7 a 1 em casa". "Dilma foi vaiada sei lá quantas vezes". "Suprema humilhação, entregou a taça para o Messi." Ops! Essa parte não houve. Como não houve a catástrofe anunciada.

Primeiro, a desorganização da Copa iria mostrar ao mundo toda a incompetência dos brasileiros. Depois, multidões iriam queimar o País por causa dos 7 a 1 para a Alemanha. Nada disso. O mundo veio, viu e se convenceu de que, além da fazenda, o Brasil pode ser também seu salão de festas.

O discurso de que um evento extraurna como a Copa é determinante para o voto supõe que o eleitor seja suscetível ao mesmo grau de infantilização com que os pretensos professores de vestiário tratam os seus jogadores. Como se nem jogador nem eleitor fossem capazes de discernir, por si próprios, o que deve ser feito em campo ou na urna.

Àqueles que torcem, em público ou em privado, pelo impacto da Copa na eleição vale lembrar que o Brasil foi campeão do mundo cinco vezes apesar dos seus técnicos, não por causa deles. Ou alguém acredita que Felipão foi mais importante que Ronaldo/Rivaldo, que Feola foi mais determinante do que Pelé/Garrincha, que Parreira fez mais do que Romário/Bebeto?

O eleitor é pragmático, egoísta e cada vez mais maduro. Por isso, assim como Copa se ganha em campo, com jogadores suando e craques brilhando, eleição se ganha com estratégia, discurso afinado com a vontade do eleitorado e candidato amassando barro, beijando criancinha - além de muito dinheiro e algum tempo de propaganda na TV.

A Copa foi um intervalo. Mudou o humor do País? Sim, para melhor, enquanto durou. Foi um carnaval de um mês. Mas todo folião sabe: a vida é o que volta na Quarta-feira de Cinzas. No Brasil, todo torcedor soube, sabe e saberá diferenciar futebol de política - com exceção de quem torce por partido.

Acabou a Copa, começa a eleição.

O campo é favorável à oposição. O desejo de mudar predomina em pelo menos dois terços da arquibancada. É tão insuperável que até a campanha da situação incluiu a palavra "mudança" no slogan de Dilma. O "Mais Mudança" é uma espécie de gerúndio político-marqueteiro. Sugere que mudança já há. E joga na confusão com os motes adversários. O de Aécio Neves é "Muda Brasil". O de Eduardo Campos, "Coragem para Mudar".

A combinação aleatória do verbo mudar nos cartazes das campanhas de situação e oposição mostra que discurso, sem prática, é vazio. Por isso o desafio dos candidatos e seus marqueteiros nesta eleição será mais difícil do que em eleições anteriores. Não basta conhecer, é preciso convencer.

Em 2010, bastou Lula mostrar que Dilma era sua candidata para elegê-la. Desta vez isso não será suficiente - nem para ela, nem para Aécio, nem para Eduardo. Não basta aparecer e se tornar conhecido da grande maioria. O vencedor será aquele que conseguir convencer o eleitor de que ele ou ela é o mais apto a promover as mudanças que o País precisa e deseja.

Isso pressupõe interpretar o que é esse desejo de mudança. Não é mais emprego, apenas. É emprego de qualidade. Não são mais médicos, apenas. É atendimento eficiente em hospitais e postos de saúde. Não é mais educação, apenas. É um ensino que qualifique e dê vantagens competitivas para quem aprende. Ou seja, não basta trocar Daniel Alves por Maicon.

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