Paulo Whitaker/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters

Volks reconhece apoio à ditadura sob protestos de ex-perseguidos

Montadora inaugura placa em memória a vítimas do regime e anuncia projetos sociais; propostas não agradam a ex-funcionários

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2017 | 05h00

A Volkswagen do Brasil reconheceu nesta quinta-feira, 14, que deu apoio ao governo militar e que houve repressão a funcionários dentro da fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Na tentativa de se reconciliar com o passado, a montadora inaugurou uma placa em memória a todas as vítimas da ditadura e anunciou financiamentos a projetos sociais. As ações, porém, não agradaram ao grupo de ex-trabalhadores que participa de investigação conduzida desde 2015 pelo Ministério Público Federal (MPF) sobre o envolvimento da empresa na ditadura militar, regime adotado no País entre 1964 e 1985.

O relatório encomendado pela própria Volkswagen ao pesquisador independente Christopher Kopper, professor da Universidade de Bielefeld, na Alemanha – e apresentado oficialmente ontem no Brasil e no país europeu – concluiu que a empresa foi “irrestritamente leal ao governo militar”. Cita ainda que seguranças da montadora monitoravam as atividades de oposição dos empregados e facilitou, com suas denúncias, a prisão de pelo menos sete funcionários.

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Pelo menos um deles, Lúcio Bellentani, então com 28 anos e membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi espancado pela polícia política nas dependências da fábrica. “O que a Volkswagen quer fazer é varrer a sujeira para debaixo do tapete”, disse ele.

“É apenas uma ação de marketing, pois até agora a empresa não fez pedido formal de desculpas à sociedade brasileira e não participou do inquérito do MPF”, completou Sebastião Neto, que coordenou o grupo de trabalho sobre a repressão a trabalhadores e ao movimento sindical da Comissão Nacional da Verdade (CNV). 

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Kopper informou que a Volkswagen, “como outras empresas, se aproveitou da política econômica daquele governo, teve enormes lucros” e que a diretoria sabia das prisões. O pesquisador disse, contudo, que não há evidências claras de cooperação institucionalizada por parte da empresa na repressão aos empregados. Seu trabalho durou quase um ano.

Questionado sobre o surgimento atual de grupos em defesa da volta do regime militar, Kopper afirmou esperar “que o Brasil nunca mais volte a ter uma ditadura”. 

‘Nada a esconder’. O presidente da Volkswagen da América do Sul e Brasil, Pablo Di Si, afirmou que a empresa “não tem nada a esconder e está aberta ao diálogo com as autoridades”. Disse, porém, que no momento não há planos de ressarcimentos individuais aos trabalhadores envolvidos.

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O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, elogiou a ação da Volkswagen por ser a primeira empresa a reconhecer a participação “nesse processo que não gostaríamos de ter vivido”. Segundo Santana, concorrentes da marca, fornecedores, indústria química e o setor financeiro deveriam fazer o mesmo e reconhecer os erros do passado.

A placa inaugurada nesta quinta-feira na ala 7 da fábrica, onde jovens frequentam cursos de formação, traz a frase “Em memória a todas as vítimas da ditadura militar no Brasil. Pelos direitos humanos, democracia, tolerância e humanidade”.

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