André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2018 | 05h00

No PSDB desde a sua fundação, em 25 de junho de 1988, o senador paulista José Serra segue como um dos líderes do partido, que sofre críticas por não ter se renovado ao longo de sua história. O tucano, no entanto, afirma que lideranças não se criam.

Nesta semana, a legenda completa 30 anos. Em entrevista ao Estado, diz que “renovar não é uma decisão”. Veja os principais trechos da entrevista.

O PSDB conseguiu fazer o que se propôs em 1988? Fugiu do fisiologismo partidário?

Conseguiu, numa primeira fase, e eu diria que até hoje é diferenciado, sem menosprezo ao MDB, e apesar dos problemas havidos. 

Mas, assim como o PMDB da época, o PSDB se tornou um partido de caciques. Não houve uma renovação de lá pra cá. Por quê?

Você não muda as lideranças por decreto. Há gente jovem boa, mas lideranças políticas têm de aparecer. Renovar não é uma decisão. E as pessoas precisam estar preparadas. Veja só, o Persio Arida é o coordenador (econômico) da campanha do Geraldo Alckmin. Veja, não estou menosprezando o Persio, que é ótimo, mas cadê a renovação? Não aparece ou não se arrisca.

Depois dos escândalos envolvendo lideranças como Aécio Neves e Eduardo Azeredo, o PSDB falhou em não fazer uma autocrítica?

A autocrítica deve fazer parte permanente da vida de qualquer partido. O PSDB, neste sentido, não deve ser diferente. Nós fazemos pouco isso. Deveríamos fazer mais.

Na sua avaliação, o PSDB vive uma crise? Uma crise ética?

Nós vivemos uma crise permanente (no PSDB). Mas é crise para todo mundo. A política toda está em crise, todos os partidos estão. No País, não há dois lados mais na política. Basta ver as discussões no Senado, não há um contra ou a favor. É a sociedade contra a política. Não se tem mais um conflito de partidos ou de pensamentos.

Qual o maior feito do PSDB? 

O Plano Real, sem dúvida, e depois o padrão de governo que criamos no Brasil. Não estou dizendo que o PSDB tornou tudo uma maravilha, mas elevou o padrão de governo.

Que rumo o partido deve tomar a partir de agora?

Abrir caminhos, como fez no passado. Mobilizar-se, de fato, para fazer uma reforma política, especialmente a reforma do sistema eleitoral, implementar o voto distrital misto, que é exequível. Essa questão é urgente e a movimentação do PSDB em torno disso é fraca. E tem a questão do parlamentarismo, que, ao meu ver, tem de ser recolocada.

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Adriana Ferraz e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2018 | 05h00

O presidente nacional do PSDB, Geraldo Alckmin, pré-candidato do partido à Presidência, enviou na última quarta-feira um breve comunicado aos integrantes da executiva tucana com três itens relativos à próxima reunião do grupo em Brasília, marcada para terça-feira, 26. Entre eles, estava o convite para um “ato comemorativo” dos 30 anos de fundação da sigla. A ideia, dizem integrantes da cúpula, é fazer um evento discreto e fechado no salão de um hotel “só para a efeméride não passar totalmente em branco”. 

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Por mais que o discurso oficial diga o contrário, há consenso entre tucanos que não há motivo para celebrações. “É o momento mais difícil da história do partido”, reconheceu o deputado Nilson Leitão (MT), líder do PSDB na Câmara. 

Em outra circunstância, o local escolhido seria o auditório Nereu Ramos, na Câmara. Foi lá que, no dia 25 de junho de 1988, os então senadores Mario Covas e Fernando Henrique Cardoso anunciaram diante de centenas de militantes eufóricos a criação do novo partido, ainda sem nome.

Os líderes do movimento dissidente do PMDB colocaram em votação o nome da legenda. Partido Democrático Popular, Partido Social Trabalhista e Partido da Social Democracia Brasileira estavam entre os mais cotados. Após a vitória da sigla PSDB, o senador paranaense José Richa, um dos recém-filiados, colocou a democracia interna como uma marca da nova legenda, que nascia em um momento de “descrença popular com os partidos e instituições”. 

Trinta anos depois, a cerimônia fechada no hotel de Brasília ocorre no momento de uma nova onda de decepção popular com partidos e instituições, que desta vez atingiu em cheio o PSDB. “O momento é ruim para todos os partidos e para a política em geral. Há uma crise política sem precedentes”, minimizou o deputado Silvio Torres (SP), tesoureiro do PSDB. 

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Pré-candidato ao Planalto, Alckmin está estacionado nas pesquisas de intenção de voto com números que variam entre 7% e 10%, o pior desempenho de um tucano nesse período desde 1989. O ex-governador mineiro Eduardo Azeredo, que presidiu o PSDB, entrou para a história como o primeiro ex-presidente do partido preso, reforçando a crise da legenda e dificultando ainda mais o projeto de retomar o poder após 16 anos.

“Há 30 anos, criamos um partido para dar ao País uma opção política à altura de seus desafios. Na Presidência, fizemos o mais bem-sucedido programa de modernização e transformação econômica da história do Brasil”, disse Alckmin ao Estado. “Agora, precisamos lutar mais, vencer de novo as forças que emperram o avanço do País. O Brasil vai mudar para melhor e, nessa luta, o PSDB também.”

O auge eleitoral do partido ocorreu durante o segundo governo FHC, quando elegeu uma bancada de 99 deputados federais e sete governadores, em 1998, e quase mil prefeitos, em 2000. Embora tenha sido o partido mais vitorioso nas eleições municipais de 2016, o PSDB tem hoje a segunda menor bancada na Câmara dos Deputados de sua história, com 49 parlamentares – maior apenas do que a bancada eleita em 1990.

“O PSDB perdeu talvez o seu principal discurso, o discurso ético. E não apenas pelo caso envolvendo Aécio Neves, mas outras lideranças históricas, como Eduardo Azeredo, que está preso, e José Serra, que é investigado. Até o presidenciável tucano, Geraldo Alckmin, é citado em casos que envolvem corrupção”, avaliou o cientista político Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas. 

Líderes. A promessa de uma “democracia interna” feita em 1988 não se concretizou. Prova disso é a falta de renovação de lideranças nacionais e regionais. “Os líderes ainda são os mesmos e estão velhos. Eles representam o ranço do partido. Foi uma geração boa, mas que não se renovou”, disse o professor emérito de Filosofia da USP José Arthur Giannotti. 

Teixeira concorda. “Como todo partido, o PSDB não se renovou. Nasceu como um movimento de crítica à política que se praticava na época, ao fisiologismo do PMDB, e hoje se assemelha muito a ele. Aceita nomes que não têm nenhum compromisso com as bandeiras originais do partido dentro de um pragmatismo calculado para vencer eleições”, afirmou. 

O cientista político Carlos Melo, do Insper, pontuou ainda que o PSDB, em determinado momento, optou por ser apenas oposição ao PT, perdeu seu rosto social democrata, sua posição progressista nos costumes e se descaracterizou. “Em determinado momento, com o fim do ‘malufismo’ em São Paulo, caminhou por uma extensa avenida que se abriu à direita. Mas, agora, perdeu até isso para Jair Bolsonaro. Não é mais direita nem centro-esquerda, como se definiu na fundação.”

Para os especialistas ouvidos pelo Estado, a crise atual não apaga os principais acertos do partido, a maioria econômicos. “O PSDB implementou no País um novo padrão de qualidade de gestão. Fez isso a partir do Plano Real, da Lei de Responsabilidade Fiscal, do controle de gastos”, avaliou o cientista político José Álvaro Moisés, da USP. “Esse legado não se quebrou.” / COLABOROU FABIO LEITE

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Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2018 | 05h00

Principal símbolo do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso considera que o partido criado por ele, Mario Covas, Franco Montoro e outras lideranças paulistas da época está hoje mais liberal. Nesta semana, a legenda completa 30 anos.

Apesar disso, FHC diz que tucanos continuam “socialmente orientados”. Confira principais trechos da entrevista:

O manifesto de fundação do PSDB disse que o partido nascia longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas. O partido está hoje perto disso?

O PSDB esteve mais perto do pulsar das ruas quando apoiou as medidas necessárias para manter o real. Lembrem-se que eu ganhei a eleição e a reeleição no primeiro turno. Depois, fora do governo federal, o PSDB manteve o controle político em expressivos Estados, como em São Paulo. Mas é indubitável que a crise político-moral que a Lava Jato desvendou levou todos os partidos para longe do pulsar das ruas.

O PSDB está mais liberal do que antes? 

O PSDB é hoje mais liberal, mas não menos socialmente orientado.

Na sua avaliação, por que o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, tem um desempenho fraco nas pesquisas se comparado às pesquisas do mesmo período desde 1994?

Porque a sociedade mudou muito, os novos meios de comunicação estão à disposição do eleitorado e o momento é difícil para quem está no governo. Entretanto, é cedo para avaliar. O jogo eleitoral para o povo começa mesmo quando a televisão e o rádio entram. 

O que o PSDB deve fazer para recuperar seus eleitores e retomar militantes? 

Dadas as características do momento brasileiro, a mensagem, a conduta moralmente correta de quem a emite e o desempenho dos atores políticos serão essenciais.

O que a prisão de Eduardo Azeredo significa para o PSDB? 

O Eduardo está sofrendo as consequências do que hoje ocorre: o passado é julgado pela métrica do presente. Além do mais, há uma busca na mídia por “equidistância”. Assim como houve um mensalão do PT, fala-se de um mensalão do PSDB mineiro, que não houve. O que houve, sim, foi caixa 2, que também está capitulado no Código. E o Eduardo teria sido beneficiário eleitoral, mas provavelmente não ator do delito. Mas para a opinião pública, é tudo “farinha do mesmo saco” e o partido paga o preço, além dele próprio, que foi condenado a 20 anos. Junto com Justiça, há também algo de vindita (vingança). Tempos bicudos. 

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