Viúva de Chico Mendes faz campanha por Marina

Desfiliada do PT há três anos, Ilzamar Mendes, viúva do líder seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988, faz campanha pela candidatura à Presidência de Marina Silva (PV) no Acre. Sem filiação partidária, embora não esconda sua simpatia pelo PV, Ilzamar critica o uso político da imagem do marido pelo PT e diz que só Marina tem o direito de vincular sua trajetória de vida à luta de Chico Mendes. A viúva revela, em entrevista exclusiva à Agência Estado, que pouco antes do crime, o seringueiro manifestava o desejo de deixar o partido que ajudou a fundar no Estado.

DAIENE CARDOSO, ENVIADA ESPECIAL, Agência Estado

03 de setembro de 2010 | 20h34

"A política do PT no Acre é feita em cima da luta do Chico. Se ele não tivesse morrido ninguém estaria aí no poder. O PT tomou a luta dele para si", desabafa a viúva. Ilzamar lembra que o líder seringueiro estava se aproximando de lideranças do PV e cogitava a saída do PT. Segundo a viúva, Chico estava desgostoso com a tentativa de radicalização do movimento em defesa da floresta e dos trabalhadores. "Tinha gente querendo se infiltrar na luta dele. O Chico Mendes defendia a ação pacífica, mas já tinham alguns radicais", disse.

Ilzamar, que também participou da fundação do PT, conta que tolerou por muitos anos as posições do partido, embora não concordasse com algumas situações. "Muitos se aproveitaram para aparecer após a morte do meu marido", critica. Ela lembra que, na época com 23 anos e dois filhos pequenos (Elenira, então com 4 anos, e Sandino, com 2 anos), ficou desorientada com a perda do marido e o PT nunca a apoiou.

"Eu levei algum tempo relevando, mas depois passei a discordar", afirma. Ilzamar diz que a mudança de postura causou desconforto dentro do PT do Acre, a ponto de tentarem afastá-la da direção da Fundação Chico Mendes (entidade que cuida da memória do seringueiro), da qual ainda é presidente. "O Chico não estaria hoje no PT, estaria no PV", acredita. Para ela, o PT mudou nos últimos anos e Chico não apoiaria essas mudanças. "O PT mudou muito seus rumos, seus ideais. Começando pelo mensalão."

Decepção

A viúva diz ter se decepcionado com o governo Lula. "Eu esperava mais do Lula, mais apoio aos trabalhadores." Ela critica uma das estrelas do governo: o Bolsa Família. "O Chico dizia que não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar. O Bolsa Família ajuda, mas será que é só disso que o povo precisa?", questionou. Para ela, o papel do Estado é dar condições iguais de sobrevivência.

Ilzamar critica também os 12 anos de administração petista no Acre, liderada pelos irmãos Jorge e Tião Viana, e que, em sua opinião, mantém os seringueiros e ribeirinhos do interior do Estado em condições miseráveis. "A política do PT foi construída para o centro da cidade. E ainda fizeram história em cima do meio ambiente, enquanto os seringueiros estão esquecidos", afirma.

''Luz''

"Hoje surge para mim uma luz no fim do túnel e ela se chama Marina Silva. Ela respeita a luta dos povos da Amazônia. Ela era a única que estava do lado do Chico em todas as lutas", disse. Ilzamar faz campanha pelo PV nas horas vagas e montou uma Casa de Marina em seu sítio em Rio Branco. "A campanha dela é pobre, então o que eu posso fazer eu faço." Na família Mendes, apenas Elenira é filiada ao PV, mas todos estão envolvidos na campanha de Marina.

A viúva de Chico acredita que a ida de Marina ao Acre vai ajudar a alavancar a campanha, mas ela teme que o vínculo da candidata com os petistas possa atrapalhar, uma vez que os irmãos Jorge e Tião Viana, candidatos ao Senado e ao governo estadual, respectivamente, não pedem votos para Marina. "As pessoas estão confusas sobre a identidade política da Marina", avalia.

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