Vitória foi construída entre pobres e pouco escolarizados

Se dependesse dos bairros da zona sul, do centro e da zona norte, eleito teria sido Fernando Gabeira

Alexandre Rodrigues, O Estadao de S.Paulo

28 de outubro de 2008 | 00h00

Os mapas eleitorais do segundo turno mais disputado do País revelam que o prefeito eleito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), deve sua eleição à zona oeste e ao subúrbio da zona norte. As regiões, que concentram os menores índices de escolaridade e de renda, deram a Paes 1.431.408 votos (85% de seus votos). Se dependesse da zona sul, do centro e de bairros da zona norte com concentração da classe média, Fernando Gabeira (PV) teria sido eleito. Mas Paes teve a seu favor uma conta simples: a periferia é mais populosa.A zona oeste e o subúrbio somam 76% do eleitorado. Gabeira foi bem votado nessas regiões, mas a vantagem de Paes numa plataforma eleitoral maior anulou o desempenho do verde na zona sul: 70,8%. No entanto, a zona sul abriga só 12% do eleitorado carioca. Gabeira perdeu por 55 mil votos.A parte da zona norte e o centro onde Gabeira também venceu com 61,6% e 56,5%, respectivamente, só correspondem a 11,2% dos eleitores. Com isso, as áreas mais ricas só contribuíram com um terço dos 1.640.970 votos que Gabeira conquistou. Os outros dois terços se dividiram entre a zona oeste e o subúrbio."O que fez a diferença foi a votação de Paes na zona oeste, ali foi decidida a eleição. Como proporcionalmente o piso eleitoral da região é maior, a falta de uma vantagem de 30, 40 pontos como Gabeira teve foi amenizada. Houve um equilíbrio das forças", analisa o sociólogo Fábio Gomes, diretor do instituto de pesquisas Informa. A vitória de Paes por margem tão apertada provocou a desconfiança dos partidários de Gabeira de que ele foi prejudicado pelo aumento da abstenção no segundo turno, de 17,91% para 20,25%. Isso teria sido causado pela antecipação do feriado do servidor, que teria estimulado os eleitores de maior renda a viajar. Porém, dados anteriores mostram que é normal abstenção maior no segundo turno, como em 2000 (16,4% e 18,65%), 2002 (15,35% e 16,53%) e 2006 (16,17% e 18%). Pouco mais de 107 mil eleitores que votaram no primeiro turno no Rio não voltaram às urnas. Considerando que, se tivessem comparecido, cerca de 9 mil desses votos seriam nulos ou brancos, Gabeira teria de conquistar no universo de 98 mil votos válidos os 55 mil que o afastaram de Paes e a metade mais um dos 43 mil restantes. Seria o equivalente a 78% dos votos válidos desse grupo.A historiadora Marly Motta, da FGV, recusa a idéia de cidade partida, onde eleitores mais bem esclarecidos votam melhor do que os mais simples. "O eleitorado das regiões mais pobres decidiu com racionalidade. Viram em Paes um passado do que já ofereceu e uma perspectiva do que vai oferecer que Gabeira não tem. Por outro lado, Gabeira foi bem votado em todo o subúrbio e zona oeste, que também tem parcela que não se identifica com o perfil social caracterizado como suburbano."

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