Vitória de Chávez complica Venezuela no Mercosul, diz Sarney

Se referendo sobre reforma constitucional for aprovado, venezuelano poderá disputar reeleição sem limites

Natuza Nery, REUTERS

30 de novembro de 2007 | 17h44

O senador e ex-presidente da República, José Sarney (PMDB-AP), afirmou nesta sexta-feira, 30, que o ingresso da Venezuela no Mercosul dependerá do resultado do referendo sobre a reforma constitucional marcado para o próximo domingo. "O ingresso vai depender do plebiscito, porque se o plebiscito aprovar essas cláusulas constitucionais, abrirá uma discussão e dificilmente a Venezuela atingirá a cláusula democrática para ser aprovada pelo Congresso brasileiro", afirmou Sarney em entrevista à Reuters.     Veja também:   Chávez acusa o Congresso brasileiro de submissão aos EUA Cronologia do impasse entre o Senado brasileiro e Hugo Chávez  CCJ da Câmara aprova entrada da Venezuela no MercosulO processo de adesão da Venezuela ao Mercosul se complicou desde que Chávez acusou os senadores brasileiros de agirem como fantoches dos Estados Unidos, por aprovarem uma moção condenando a não-renovação da concessão da rede RCTV, que fazia duras críticas ao governo do presidente venezuelano.  Corrida armamentista Sarney voltou a alertar que a Venezuela está iniciando um movimento que pode dar início a uma corrida armamentista na America Latina. Para investidores em Nova York, o ex-presidente afirmou que considera o socialismo da Venezuela um "socialismo de fantasia". O senador afirmou que, por ter sido "o presidente da transição (da ditadura militar para a redemocratização)", tem "a função de lutar pela Democracia na America Latina". "Estou apoiando o presidente Lula, porque (Lula) foi a solução para o Brasil." "Tem aqueles que querem fortalecer a democracia e aqueles que estão marchando para o populismo", afirmou em referência ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez. "Vou fazer como Toledo (ex-presidente peruano Alejandro Toledo, que abriu a conferência sobre America Latina), ele não citou nomes. Vou acompanhar a solução dele". Mas o senador não resistiu por muito tempo. "A reforma constitucional (promovida por Chávez) tem intenção de fazer uma revolução socialista, o que é um retrocesso", avaliou. "Este é um assunto interno, não podemos interferir. Quanto a compra de armas, sim", ponderou, argumentando que esta questão afeta a região como um todo. "Não tem explicação o porque a Venezuela compra tanto armamento." Quando a Venezuela se une ao Irão para um acordo nuclear, então, completou, "diz respeito ao mundo inteiro". Sobre o Mercosul, Sarney comparou o acordo ao processo experimentado pela União Européia. Disse que, "como o desejo é ampliar o mercado comum para toda a America Latina, teremos problemas". Ele ponderou que o projeto integrando toda a região não deve ser de conclusão rápida.      Ano que vem O presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), declarou na última quinta-feira que a votação do Protocolo de Adesão da Venezuela ao Mercosul pelo plenário da Casa ficará para 2008. Ou seja, a tramitação do texto não será concluída até a próxima Reunião de Cúpula do Mercosul, agendada para os dias 17 e 18 de dezembro, em Montevidéu.  Encaminhado em fevereiro passado ao Congresso Nacional, o texto foi aprovado pelas Comissões de Relações Exteriores e de Constituição e Justiça da Câmara. Depois da possível aprovação pelo plenário da Câmara, deverá seguir para a etapa mais difícil de sua tramitação, no Senado Federal, onde há maiores resistências ao ingresso da Venezuela ao bloco.  Há três meses, essa suposta demora foi alvo de duras críticas do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que chegou a ameaçar com a retirada do pedido de ingresso de seu país como membro-pleno do bloco. Projeto de adesão ao bloco O projeto ratifica o texto do protocolo assinado em Caracas, em julho de 2006, pelos países que fazem parte do bloco econômico (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), além da própria Venezuela. Assinado em 1998, o protocolo de Ushuaia, integrante dos acordos do Mercosul, estabelece em seu artigo primeiro que a "a plena vigência das instituições democráticas é condição essencial para o desenvolvimento dos processos de integração entre os Estados Partes do presente Protocolo". Chávez se queixou reiteradamente das demoras no processo legislativo brasileiro e acusou os senadores de representar interesses dos Estados Unidos por pedirem que revisasse a decisão de não renovar a licença de transmissão de um canal de TV crítico de seu governo. Os defensores do protocolo lembram que, entre 2003 e 2005, as exportações brasileiras para a Venezuela cresceram 265%, e que, portanto, rejeitar a proposta seria ir na contramão desse processo de aproximação econômica. Já os críticos defendem que a entrada da Venezuela no Mercosul pode trazer mais problemas que ganhos ao processo de integração do Mercosul, em razão das posições políticas assumidas pelo presidente Hugo Chávez. (Com Nalu Fernandes, da Agência Estado) Texto ampliado às 20h25

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