Vitimização do negro nos livros estimula preconceito, diz historiador

Retratação de negro como vítima dificulta identificação social, diz Manolo Florentino.

Carolina Glycerio e Silvia Salek, BBC

23 de agosto de 2007 | 08h33

O tratamento do negro como vítima nos livros de História do Brasil reforça o preconceito racial, afirma o historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)."O padrão ainda é de redução, nos livros didáticos, do negro à vítima da história brasileira, vítima da sanha colonizadora, vítima da sanha do branco", afirmou Florentino, em entrevista à BBC Brasil."Isso dificulta o processo de identificação social das nossas crianças com aquela figura que está sendo maltratada o tempo todo, sempre faminta, maltrapilha."Segundo Florentino, não se trata de negar os abusos aos quais o negro foi submetido durante a escravatura, mas de mostrar como, apesar desse contexto, também participou, de maneira positiva, da formação do Brasil.O historiador, autor de livros como Em Costas Negras, sobre o tráfico de escravos, destaca, por exemplo, que, dentre todas a sociedades escravagistas americanas, a brasileira foi a que conheceu os maiores índices de alforrias. "Isso não é devidamente tratado pela grande parte dos nossos livros", disse.Por outro lado, figuras que, por serem mestiças, conseguiram se libertar do legado da escravidão e se destacar na vida pública passaram para a história como brancos."Rui Barbosa, por exemplo, só é branco no Brasil", disse Florentino."Você pega presidentes como Floriano Peixoto. Ele é o típico caboclo brasileiro, índio misturado com negro. Você pega Rodrigues Alves e Washington Luís. São pessoas que, de acordo com um sistema de classificação anglo-saxão, não são exatamente brancos."Esse fenômeno faz parte da chamada "ideologia do branqueamento", pela qual indivíduos de ascendência negra tentavam se passar por brancos para ascenderem socialmente. Florentino sustenta, porém, que a ideologia do branqueamento e o preconceito racial vêm perdendo força na sociedade brasileira, principalmente nas camadas menos favorecidas.Uma prova disso, diz ele, é a composição dos chamados casais mistos. Se até 30 ou 40 anos atrás, a maioria deles era formada por homens brancos ou mais claros e mulheres negras ou mais escuras, hoje, a composição típica se inverteu, com mais mulheres claras e homens escuros. "Tradicionalmente, desde a época colonial, o veículo de branqueamento tem sido as mulheres. Eram elas que buscavam branquear as suas gerações, quando podiam, através do casamento com homens brancos. Hoje, é a mulher branca que busca homens negros."Uma lei federal de 2003 tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira, "no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras".Embora pouco aplicada na prática, algumas escolas promovem programas de valorização da cultura afro-brasileira, com apoio do governo federal.Há um ano, a professora de matemática Olivia Maria Batista de Oliveira tenta ensinar aos alunos, na sua maioria negros, que eles não aparecem apenas como sujeitos de maus tratos na história brasileira."Tem a parte triste, mas tem a questão da resistência, das outras formas de contribuição", diz a professora, que leciona numa escola de Barbacena, em Minas Gerais. "Temos que mostrar que houve luta, resistência, que isso contribuiu para a força do povo brasileiro."Para o historiador Manolo Florentino, entretanto, o enfoque na "historiografia da resistência" é uma das razões pelas quais os alunos têm dificuldade de se identificar com as populações escravizadas. "Ao apontarem para os aspectos unicamente patológicos da escravidão, o que resta a eles é mostrar que a única forma de resistência é a fuga, é a formação de quilombos, quando na verdade a constituição de identidade negra brasileira, desse agente socialmente ativo, se dá dentro da escravidão, dentro da sociedade, que está em processo constante de conflito, mas também de negociação."Já a professora Olivia acredita que é importante mostrar que os africanos e depois os afro-brasileiros resistiram à dominação, e diz que o projeto já deu resultado na auto-estima e no desempenho dos alunos."Já deu para sentir perfeitamente mudança do comportamento: como cresceram, se sentem mais seguros", conta Olívia. Ela cita o caso de uma aluna da sétima série que tinha grandes dificuldades para aprender e se relacionar com os colegas."Ela virou outra pessoa. Hoje participa de todas as atividades. Antes, só chorava porque ninguém queria dançar com ela, os meninos a chamavam de ''tição''. Ela ainda tem dificuldade, mas participa, não está mais preocupada com as provocações".BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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