Vítimas do tráfico, índios adotam toque de recolher

Reserva em Dourados (MS) tem índice alarmante de assassinatos

João Naves de Oliveira, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

Um grito de socorro dentro da Reserva Indígena de Dourados não significa nada depois das 22 horas. Pode ser uma vítima dos narcotraficantes e "quem vai ter coragem de socorrer o coitado", afirma o cacique da Aldeia Bororó, Luciano Areovalo, de 54 anos. "Nós implantamos o nosso toque de recolher, por causa dos conflitos entre grupos de traficantes que estão agindo dentro desta aldeia e de Jaguapirú. Quem desobedecer pode morrer, no facão ou na foice."O procurador da República em Dourados, Marco Antônio Delfino de Almeida, confirma a existência dessa situação, acrescentando que a consequência mais imediata é a violência. "Considerando as proporções, o índice de assassinatos nas aldeias Bororó e Jaguapirú é de 145 mortes para cada 100 mil habitantes. O atual índice de homicídios no País é de 24,5 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes."Para o delegado da Polícia Federal José Antônio Simões de Oliveira Franco, somente agora está sendo elaborado um plano para resolver o problema. "Não é função da PF o policiamento ostensivo ou preventivo nas aldeias, tampouco atender a ocorrências factuais do dia a dia, de caráter local. Estamos elaborando o que nunca foi feito na Reserva Indígena de Dourados, que é um plano de combate à violência."Alberto Ferreira Neto, também delegado da PF e um dos coordenadores do projeto de segurança em Bororó e Jaguapirú, explicou que, no ano passado, foram levantadas "denúncias e informações até incríveis" sobre os fatores da violência nas aldeias. "O mais saliente é o alcoolismo, porém, é ele que leva a culpa também sobre homicídios, agressões com mutilações das vítimas, estupros, entre outros, praticados pelos traficantes."Denúncias e informações recolhidas, conforme Neto, estão sendo estudadas uma a uma pelo setor de inteligência da PF. Uma delas aponta que índios estariam trabalhando na colheita e processamento da maconha paraguaia em Capitán Bado, divisa com Coronel Sapucaia (MS). Receberiam como pagamento a própria droga. O comandante do Departamento de Operações de Fronteira (DOF), o coronel Joel Martins dos Santos, apurou que os donos das lavouras de maconha na divisa de Mato Grosso do Sul com o Paraguai utilizam mão de obra de rapazes indígenas "fisicamente fortes para aguentar o trabalho que não é leve". No dia 30 de maio, uma ocorrência chamou a atenção do coronel, envolvendo três adolescentes indígenas. Cada um transportava um pacote de seis quilos de maconha. "Pode ser o pagamento que receberam dos produtores da droga."As duas aldeias, instaladas a 7 quilômetros do centro de Dourados, abrigam quase 14 mil índios das etnias guarani-caiová, em 3.500 hectares. São divididas pela rodovia estadual Dourados-Itaporã, cujo tráfego é intenso, e não contam com obstáculos para o controle da entrada e saída de veículos.Os criminosos conseguiram fazer do lugar um dos mais protegidos entrepostos de distribuição da maconha paraguaia na região, devido às restrições impostas pela Fundação Nacional do Índio (Funai) sobre o policiamento. "A falta de definição para a segurança nas aldeias também colabora com o aumento da violência", afirma o procurador da República.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.