Vítimas de ACM têm vidas marcadas para sempre

Uma possível cassação ou renúnciado senador Antonio Carlos Magalhães terá significado especialpara um jornalista e um advogado, que tiveram suas vidasabaladas pelo carlismo ou por tudo aquilo que esse sistemarepresentou. Nem mesmo se quisessem, o jornalista João CarlosTeixeira Gomes, de 63 anos, e o advogado Carlos Mariguella, de53 anos, conseguiriam ficar indiferentes. João Carlos, ou Joca,foi perseguido durante toda a ditadura por ACM. Na mesma época,em 1969, Mariguella perdeu o pai, o guerrilheiro CarlosMariguella, assassinado por policiais em São Paulo. "Como Pinochet, ACM é um símbolo de poder que foiconstruído nesse período autoritário e a decadência deles tem umsignificado muito especial", avalia Mariguella, ex-deputadoestadual (1982-1986) e hoje um advogado trabalhista em Salvadore membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB. "Esse é ummomento histórico por tudo aquilo que eles representaram e meupai sempre combateu", disse, um dia depois de ajudar a libertarestudantes presos no protesto contra o senador. Desde 1948, ano do seu nascimento no Rio, Carlinhos,como é mais conhecido, convive com as agruras do autoritarismo.Vítima da ditadura do Estado Novo, seu pai, deputadoconstituinte, precisou se refugiar na clandestinidade. "Fuipara Salvador com minha mãe e só fui conhecer meu pai com 7anos", recorda. "Fiquei com ele até 1964, quando outraditadura nos separou e eu voltei para a Bahia." Do pai, ele só guarda boas lembranças: "Era um grandesujeito, que só foi para a luta armada porque, ao contrário damaioria, estava convencido de que a ditadura tinha vindo paraficar." Além de perder o pai, Carlinhos chegou a ser preso,entre 1975 e 1977, quando era correspondente do jornal ´A VozSindical´. Depois de não conseguir reeleger-se em 1986, resolveuseguir os conselhos da mãe e se dedicar ao Direito. Mesmoafastado da política partidária, acompanha com grande interesseos rumos do carlismo. "A derrota de ACM vai encorajar muitaspessoas que hoje o apóiam mais por medo do que por admiração." Esta também é a convicção de Joca, que entre 1969 e 1975 no Jornal da Bahia, sofreu com o carlismo. "A Bahia toda estádoida para se ver livre desse homem", acredita o autor do livro´Memória das Trevas´. "Ele é um doente, tem uma disfunçãopsíquica, uma tirania muito pior que a dos militares",desabafa.HistóriasNo livro, de 765 páginas, o jornalista conta váriashistórias de opressão do carlismo, mas algumas chegam a serengraçadas. "Uma vez ele me ligou dizendo que era o Ataíde epediu para antecipar que matérias publicaríamos no dia seguintecontra o governador." Em outra ocasião, ACM mandou um assessor pedir umautógrafo do escritor, que lançava um livro sobre o cineastaGlauber Rocha. "Fiquei no drama, mas não queria estragar omomento e fiz uma dedicatória assim: Senador, a vida de Glauberfoi um exemplo de fidelidade democrática e convivência plural."Algum tempo depois, ACM declarou que Joca tinha até lheoferecido uma dedicatória. "O ACM não percebeu que aquilo nãoera uma dedicatória, mas um recado por tudo aquilo que ele nuncapraticou." Por essas e outras, Joca festeja a derrota do rival, masnão esconde uma ponta de preocupação. "Se esse cara renunciarou for cassado, vou morar no Rio. Ele vai tornar minha vida uminferno e já estou velho demais para isso."

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