Vítima da Operação Condor conta sobre sua prisão

Está de volta ao Brasil depois de 34 anos Carlos Alfredo Claret, argentino preso pela Operação Condor - que uniu ditaduras do Cone Sul no combate a movimentos de esquerda - em 1978, no Rio Grande do Sul.

LUCAS AZEVEDO, Agência Estado

10 de dezembro de 2012 | 21h00

Capturado pelo Exército brasileiro e torturado na Polícia Federal (PF), o engenheiro e professor universitário conseguiu a liberdade depois de 30 dias nas mãos de agentes brasileiros e argentinos. Sua prisão evidencia e dá uma maior dimensão da conexão repressiva entre as ditaduras do Cone Sul, especialmente a argentina e a brasileira. "Há uma centena de histórias que nunca foram contadas. Alguns (presos) se salvaram, outros não", avaliou Claret na tarde desta segunda-feira (10), em Porto Alegre.

A prisão de Claret ocorreu dois meses antes do sequestro dos uruguaios Universindo Diaz e Lilian Celiberti, na capital gaúcha, também por agentes brasileiros, dentro da Operação Condor. "A Operação Condor fluía no Rio Grande do Sul livremente. A facilidade com que isso foi feito mostra que as forças de segurança tinham certeza da impunidade. É um caso que, com sorte, a vítima sobreviveu e está aqui para contar o que aconteceu. O Brasil sempre teve o papel protagônico na Operação Condor, mas sempre com o cuidado de não deixar impressões digitais", destacou o presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), Jair Krischke.

O engenheiro, que fugiu do governo militar argentino após ter um amigo assassinado, vivia como turista no Brasil com a mulher e um casal de filhos. Embora se apresentasse trimestralmente para renovar o visto e não ter qualquer participação na luta armada, Claret foi encurralado por quatro veículos militares brasileiros ao deixar o trabalho no dia 12 de setembro de 1978, em Passo Fundo, no norte gaúcho.

Depois de alguns dias nas dependências do Exército, foi levado a Porto Alegre por dois agentes da PF. Lá, passou quase um mês preso, sendo interrogado e torturado. No dia 29 de setembro de 1978, Claret foi visitado pelo então representante no Brasil do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), Guy Prim. Seu paradeiro só foi conhecido porque um amigo testemunhou sua captura e acionou o MJDH. Naquele fim de setembro, Claret, a mulher o casal de filhos receberam o status de refugiados políticos e ingressaram na Suécia, onde vivem até hoje.

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