Visita de ativista ao Brasil irrita governo do Irã

Em fevereiro, quando a viagem começou a ser divulgada, embaixada do Irã em Brasilia distribuiu texto acusando ativista de trabalhar para 'potências ocidentais'

Roberto Simon / SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2011 | 19h56

A visita ao Brasil da iraniana ganhadora do Nobel da Paz Shirin Ebadi tem irritado o regime de Teerã. Em fevereiro, quando a viagem começou a ser divulgada, a embaixada do Irã em Brasília enviou a jornalistas e diplomatas um texto acusando a ativista de trabalhar para "potências ocidentais" contra a aproximação do Brasil com o país persa.

 

"Shirin Ebadi, autointitulada ativista dos direitos humanos, está tentando enfraquecer a firme política do Brasil em relação ao programa nuclear iraniano", diz o texto. "Ela provavelmente tentará se aproveitar da nova política de direitos humanos da presidente Dilma (...) e tentará convencer autoridades brasileiras a se distanciar do Irã."

 

Há cerca de duas semanas, o embaixador do Irã no Brasil, Mohsen Shaterzadeh, foi recebido no Palácio do Planalto pelo assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia. Funcionários da presidência recusaram-se a comentar o conteúdo da conversa e não confirmaram se Shaterzadeh e Marco Aurélio discutiram a visita da advogada iraniana.

 

O governo iraniano tem visto com apreensão os sinais de mudança na diplomacia brasileira, especialmente em relação aos direitos humanos.

 

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, enviou uma carta a Dilma, entregue na cerimônia de posse, parabenizando a presidente eleita pela vitória nas urnas e pedindo para que Irã e Brasil mantivessem a calorosa relação do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Com o voto brasileiro no Conselho de Direitos Humanos da ONU pela criação de um relator especial para o Irã, no fim de março, a relação bilateral começou a esfriar. Iranianos, porém, evitaram criticar publicamente o governo brasileiro e apenas um protesto verbal foi apresentado.

 

O maior temor iraniano, porém, é que o Itamaraty mude de posição na questão nuclear. O Brasil entrou na negociação com o acordo firmado em maio no Irã pelo presidente Lula, ao lado do premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, e de Ahmadinejad. Ao final, os EUA e países europeus rejeitaram a chamada "declaração de Teerã". No mês seguinte, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma quarta rodada de sanções contra os iranianos; Brasil e Turquia foram os únicos a votar contra a punição.

 

O isolamento no órgão máximo da ONU obrigou o governo brasileiro a rever sua posição na negociação nuclear. O Itamaraty decidiu que só se envolve na questão se for convidado tanto por Teerã quanto pelo chamado P5+1, grupo formado pelos cinco membros permanentes do conselho (EUA, Rússia, Grã-Bretanha, França, Alemanha e China) e a Alemanha.

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