'Virei fã do Biden', diz Lula a políticos em Brasília

Petista discute plataforma de vacina e auxílio emergencial com nomes do Centrão; Tasso diz ser preciso evitar 'mosca azul'

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2021 | 16h35

Caro leitor,

No momento em que o presidente Jair Bolsonaro  radicaliza cada vez mais o discurso para enfrentar a CPI da Covid no Senado, seus adversários ensaiam, nos bastidores, uma estratégia unificada em defesa da vacinação e do aumento do auxílio emergencial. A comoção nacional causada com mais de 400 mil mortes por coronavírus, aliada aos efeitos da crise econômica, com desemprego e recessão, tem potencial para se transformar em um bumerangue contra a reeleição de Bolsonaro, em 2022.

“Virei fã do Biden”, disse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em conversa com deputados, na noite desta quarta-feira, 5, numa referência ao democrata Joe Biden. O governo americano decidiu apoiar a suspensão de direitos de propriedade intelectual sobre vacinas contra a covid-19. A ideia, proposta por Índia e África do Sul na Organização Mundial do Comércio (OMC), permite a quebra de patente dos imunizantes. O Brasil é o único país entre as nações de renda média e baixa que ficou contra a proposta na OMC.

Nos diálogos mantidos em Brasília com políticos do Centrão – bloco hoje aliado a Bolsonaro – e também de vários matizes ideológicos, Lula esboçou um plano para sua candidatura ao Palácio do Planalto. Aos interlocutores desta semana, o petista pregou não apenas uma ampla aliança – que ultrapasse as fronteiras da esquerda – como também uma plataforma única, neste momento, com dois pontos essenciais. É aí que se encaixam a defesa da vacinação em massa e do aumento do auxílio emergencial para R$ 600.

Os movimentos dos desafiantes de Bolsonaro têm ido nessa direção, mas ainda patinam. Até agora não há acordo sobre uma estratégia mais consistente, ainda que temporária. Além disso, os competidores não têm feito planos para uma maratona, mas, sim, para uma corrida de cem metros.

O PSDB, por exemplo, está hoje mais focado em uma queda de braço que envolve a montagem de prévias para a escolha do candidato à Presidência. Desiludido, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, protagonista da maior derrota do PSDB em campanhas presidenciais, deseja agora disputar o Bandeirantes. Sem apoio do governador João Doria, no entanto, Alckmin está em adiantadas negociações para se filiar ao PSD de Gilberto Kassab.

No plano nacional, ganha força uma articulação na seara tucana com o objetivo de adiar as prévias para fim de março ou primeira semana de abril de 2022. As primárias no PSDB estão marcadas para 17 de outubro, mas o grupo contrário a Doria quer emparedá-lo.

A estratégia consiste em empurrar a escolha do candidato à sucessão de Bolsonaro para a data limite estabelecida por lei para que ocupantes de cargos públicos se afastem de seus postos. Este prazo, de seis meses antes da eleição, também coincide com a data estipulada para filiações partidárias de quem pretende concorrer em 2022.

Embora o discurso oficial seja que o adiamento das prévias é necessário para buscar um “nome de consenso”, na prática os adversários de Doria, como o deputado Aécio Neves (MG), querem vê-lo fora do partido.

Além de Doria, outros três nomes se apresentaram para a disputa interna: o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, o senador Tasso Jereissati e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio.

Tasso passou a ser chamado por tucanos de “Biden brasileiro”, sob o argumento de que é o único político capaz de agregar forças no campo de centro contra Bolsonaro. De quebra, poderia atrair Ciro Gomes (PDT), com quem tem uma relação de amizade.

Ao Estadão, Tasso disse estar “extremamente lisonjeado” com o apelido. “Mas eu vou ter de aprender muito”, afirmou ele. O tucano tem 72 anos e o presidente dos Estados Unidos, 78.

“Assisti à campanha do Biden, depois a eleição dele para presidente. E minha mulher sempre dizia: ‘Olha, é mais velho que você; olha como ele sobe a escada correndo, como ele anda rápido’. Até que um dia, subindo a escada do avião, caiu. Aí eu disse: ‘Olha, eu ainda não caí da escada’”, contou Tasso, rindo.

O senador procura construir a “terceira via” na campanha ao Planalto. “É preciso ter muito sangue frio para não deixar que a mosca azul lhe morda”, observou. Para Arthur Virgílio, o PSDB precisa retornar ao centro do debate nacional. “O partido anda sumido. Por que o PSDB não fala mais em parlamentarismo? Não podemos permitir arranhões à democracia”, insistiu.

Doria, por sua vez, tenta driblar a alta rejeição na campanha. O governador adotou o mote do “Brasil da esperança”, a bordo do qual joga os holofotes para temas que cada vez mais preocupam os brasileiros, como saúde e emprego. “O Brasil da esperança não alimenta ódios, nem rancores, nem racismo, nem conflitos”, escreveu o governador, em artigo publicado no Estadão.

Enquanto isso, o “gabinete do ódio” continua a pleno vapor em Brasília e Bolsonaro esgarça ainda mais as relações com a China. Diante dos percalços enfrentados na CPI da Covid, o  governo não sabe mais o que fazer para agradar o  general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde  que não esconde de ninguém se sentir abandonado pelo Planalto. Pazuello alegou suspeita de reinfecção por coronavírus para ficar em “quarentena” e adiar o depoimento na CPI. Será mesmo?

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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