Vilarejo parou no tempo dos combates, tortura e prisões

Os poucos moradores de Santa Cruz do Araguaia viraram memória viva

, O Estadao de S.Paulo

25 de junho de 2009 | 00h00

Santa Cruz do Araguaia é um povoado, à beira do rio, com apenas uma rua e trinta casas. Nos anos 1960, o lugar era um dos mais movimentados do Baixo Araguaia. Por aqui passavam negociantes de pedras preciosas, de peles de animais, peixes e castanha. O povoado entrou em decadência em 1972, com a chegada de tropas do Exército para combater a guerrilha.A enchente de 1980 derrubou casas já abandonadas por quem ficou com medo de apanhar dos militares. Os moradores que permaneceram vivem hoje mergulhados no passado. A história dos guerrilheiros e da repressão está em todas as rodas de conversas debaixo das árvores na praia que começa a se formar agora com o início do verão amazônico. Essa "memória da guerra", como foram batizados os combates, nunca se apaga.Os poucos visitantes que desembarcam no porto estão atrás de histórias do conflito que dividiu corações e mentes durante a Guerra Fria. São pesquisadores e representantes do Ministério Público ávidos pelas histórias de quem foi torturado ou viu amigos e parentes sofrerem humilhações.O motor que gera energia funciona da parte da manhã até o final da telenovela da noite. Nas noites iluminadas por candeeiros, a violência dos tempos da guerrilha é relatada hoje com palavras duras e impublicáveis. Ex-vizinho do guerrilheiro Paulo Roberto Márques, o Amaury, o comerciante Raimundo Nonato da Silva, o Paçoca, 55 anos, diz que viu um amigo passar "a maior vergonha" que um homem pode sofrer na praia do rio. Era o pescador Davi, flagrado pelo Exército enquanto levava uma carta de Amaury para o também guerrilheiro Osvaldo Orlando Costa, o Osvaldão.VÍTIMAPaçoca foi um dos quatro moradores de Santa Cruz que receberam espingardas do Exército para vigiar amigos presos na única escola do lugar. As aulas foram interrompidas. A escola virou presídio de "apoios" de guerrilheiros. Luciano Pici, outro amigo de Paçoca, morreu depois de sofrer tortura. O nome dele não está em nenhuma das listas de vítimas da repressão elaboradas por entidades de direitos humanos nos anos 1980 e 1990. "Morreu vomitando sangue", relata o comerciante.A casa onde funcionava a farmácia montada por Amaury foi arrasada pelos militares. Só ficaram as marcas da base da pequena construção de tijolos coberta de telhas. "Antes de entrar no mato, o Amaury passou de casa em casa comprando todas as lanternas e pilhas", lembra Paçoca.

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