Vigilância dos EUA ameaça visita de Dilma a Obama

Presidente vai cobrar na ONU ação internacional contra suposta violação de telefonemas e e-mails e cogita chamar de volta o embaixador brasileiro

O Estado de S. Paulo

02 de setembro de 2013 | 22h09

BRASÍLIA - Numa reação à revelação de que foi alvo de monitoramento por parte da Agência Nacional de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA), a presidente Dilma Rousseff ameaça cancelar a visita oficial àquele país, prevista para outubro. Antes disso, Dilma usará a tribuna da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, no próximo dia 24, em Nova York, para cobrar uma ação internacional contra a violação de telefonemas e correspondências eletrônicas.

A presidente cogita até mesmo chamar de volta o embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Mauro Vieira, caso o colega Barack Obama não dê "explicações convincentes" nem se desculpe pela espionagem da NSA.

Tanto o cancelamento da visita oficial aos EUA como a retirada do embaixador representariam uma crise diplomática sem precedentes. Dilma não tomou decisão final e ainda avalia a conveniência desses gestos.

Na tentativa de articular um protesto de peso, a presidente levará o assunto à reunião do G-20 – grupo de países mais poderosos do planeta –, que ocorrerá na quinta e na sexta-feira, em São Petersburgo, na Rússia. Ela também montará uma estratégia contra a bisbilhotagem norte-americana no próximo encontro dos Brics, fórum formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Comércio. O tema foi discutido nesta segunda-feira por Dilma em reunião com sete ministros, no Palácio do Planalto. A portas fechadas, ela avaliou que o monitoramento norte-americano deve ter objetivos comerciais. Uma das suspeitas envolvem até as reservas de pré-sal, além dos lobbies da indústria armamentista. O governo avalia a possibilidade de enviar missões a outros países para verificar como o problema do monitoramento das comunicações vem sendo tratado.

"Se podem espionar uma presidenta da República, imagine o que fazem com um cidadão e com uma empresa?", perguntou Dilma, de acordo com dois participantes do encontro. Mais tarde, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, adotou o mesmo tom ao dizer que, se confirmada, a denúncia de interceptação da correspondência eletrônica do governo representa fatos "inadmissíveis" e "muito graves", não condizendo com as relações de parceria entre Brasil e Estados Unidos.

"O que chama mais a atenção é que a violação de sigilo atingiu a chefe do nosso governo", insistiu Cardozo. "Se violação do sigilo atingiu a presidente, o que não dizer de cidadãos brasileiros e de outras empresas?" A denúncia de que Dilma teria sido espionada foi exibida domingo pelo programa Fantástico, da TV Globo.

Segundo a reportagem, a NSA monitorou e-mails, telefonemas e até mensagens do telefone celular da presidente e de seus principais assessores. Em julho, documentos em poder do ex-técnico da NSA Edward Snowden mostraram que telefonemas e e-mails de cidadãos e empresas no Brasil também foram rastreados.

"São fatos gravíssimos, que, se provados, representam uma violação inaceitável da soberania do Brasil", argumentou o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo Machado. "O tipo de reação (do Brasil) dependerá da resposta que for dada (pelos EUA)."

O chanceler convocou ontem o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, para uma conversa reservada. "O embaixador Shannon se comprometeu a levar a posição do Brasil à Casa Branca. Ele entendeu o que foi dito, até porque foi dito em termos muito claros", comentou Figueiredo.

Para o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, os EUA estão fazendo "espionagem industrial e comercial". Para ele, "esse aparato todo tem objetivo de trapacear nas negociações e levar vantagem indevida nas tratativas comerciais e industriais. Não há necessidade dessa arapongagem toda para saber que não existe, no Brasil, ameaça à segurança americana".

A presidente Dilma embarcou ontem à noite para São Petersburgo. Lá, ela terá a primeira oportunidade de falar com Obama – mas não há nenhuma agenda bilateral prevista entre os dois presidentes.  

VERA ROSA, LU AIKO OTTA, TÂNIA MONTEIRO, LISANDRA PARAGUASSU e RICARDO DELLA COLLETTA

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