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Viés de otimismo dos bolsonaristas

Conexões de conservadores com Bolsonaro diminuem a percepção de risco quanto à suscetibilidade e a gravidade da covid

Carlos Pereira, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2021 | 05h00
Atualizado 14 de junho de 2021 | 11h15

Pessoas tendem a superestimar as chances de experimentar resultados favoráveis ou subestimar as chances de obter resultados desfavoráveis. Esse comportamento é conhecido como viés de otimismo e se manifesta em diversos contextos.

Por exemplo, indivíduos tendem a subestimar o risco de ganhar peso e contrair doenças cardíacas; mesmo quando fumantes, avaliam como baixo o risco de contrair câncer de pulmão; dirigem de forma arriscada quando consideram que são baixas as chances de se envolverem em acidentes.

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O comportamento otimista sobre eventos futuros pode até gerar mais felicidade. Estudos apontam que otimismo estimula o sistema imunológico, diminui o risco de sofrer um AVC, propicia mais sucesso no trabalho, gera pessoas mais saudáveis etc. Mas o excesso de otimismo pode ser problemático, pois tende a induzir a comportamentos imprudentes e impedir a adoção de medidas de autoproteção.

Por outro lado, comportamentos de autoproteção podem afetar a própria percepção de risco. Por exemplo, ciclistas que fazem uso habitual de capacete tendem a dirigir suas bicicletas de uma forma mais aventureira.

Será que, no caso da pandemia da covid, medidas de autoproteção, como o uso de máscaras, estimulariam um otimismo irreal e, por consequência, um comportamento mais arriscado?

Para responder a essa pergunta, eu e meus coautores da FGV EBAPE (Yan Vieites, Guilherme Ramos, Eduardo Andrade e Amanda Medeiros) pesquisamos, a partir de dois surveys experimentais com o apoio do Estadão, se o uso de máscara durante a pandemia da covid poderia aumentar a propensão das pessoas a se sentirem mais seguras de não contrair a doença e/ou de desenvolvê-la na sua forma mais branda, e, com isso, se expor a mais riscos.

Pessoas que usam máscara mais frequentemente exibiram viés de otimismo, na medida em que percebem como menor o risco de serem infectadas (suscetibilidade) em relação a outras pessoas da mesma idade, gênero e vizinhança. No entanto, o uso de máscara não influenciou de forma sistemática o otimismo irreal quanto ao risco de desenvolver a doença de forma mais grave (severidade).

A pesquisa, que deu lastro a artigo que acaba de ser aceito para publicação no Journal of Experimental Psychology: Applied, e que contou com a participação de 4.054 respondentes entre os dias 25/05 e 01/06 de 2020, também investigou se a ideologia política (esquerda, centro e direita) e a aprovação/reprovação do governo Bolsonaro exacerbariam o viés de otimismo diante do uso de máscara.

Como pode ser observado na figura 1, os respondentes que aprovam a performance do presidente Bolsonaro na pandemia apresentaram uma percepção comparativa de risco mais baixa, tanto para a suscetibilidade de contrair a covid e, especialmente, para a severidade da doença.

Ou seja, os eleitores que aprovam a performance do presidente são mais irrealisticamente otimistas do que os que o reprovam. Quanto maior a aprovação de Bolsonaro, maior a probabilidade de acreditarem que não serão infectados e, se contaminados, experimentariam resultados menos gravosos da covid.

Essa percepção enviesada dos eleitores que aprovam Bolsonaro parece ser consistente com a interpretação do próprio presidente sobre riscos e gravidade da pandemia. Bolsonaro minimizou a doença desqualificando-a como uma “gripezinha”. Negligenciou a compra de vacinas e fez defesa ostensiva de uso de medicamentos sem comprovação científica para o tratamento precoce, estimulando aglomerações, se opondo ao distanciamento social e não fazendo uso de máscara.

Em suma, conexões de eleitores conservadores com seu líder desconectado da realidade aguçam o otimismo irreal em relação à covid.

* CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR TITULAR DA ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS (FGV EBAPE)

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