Vice acha útil nome do mercado na Fazenda

Para Temer, novo titular da área econômica deve buscar desenvolvimento que resulte no incremento da indústria e do comércio

Entrevista com

Michel Temer, vice-presidente da República

Débora Bergamasco, João Domingos, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2014 | 23h02

O vice-presidente Michel Temer avalia, em entrevista ao Estado, que o perfil da nova equipe econômica deverá cuidar da indústria e do comércio. Ele afirma que se o nome do novo ministro tiver o respeito do mercado financeiro, será muito útil para o governo. Temer, que é presidente nacional do PMDB, acredita que a presidente Dilma Rousseff observará o tamanho do partido na formação do novo governo.

Fala-se em mudanças na área econômica. Qual é o perfil que o sr. deseja para a nova equipe?

Acho que deve cuidar de um desenvolvimento que resulte necessariamente no incremento da indústria e do comércio. As medidas centrais, exatamente, não sei quais serão. Mas acho que essa será a tônica daqueles que vão conduzir a economia do País.

Isso significa que deve ser uma pessoa do mercado?

Se for uma pessoa do mercado, que seja admitida pelo mercado, seria útil para o governo. Agora, não sei quem será, né?

Fala-se muito no nome do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. Mas falam que a presidente não gosta muito dele.

Nunca ouvi até agora nenhuma palavra da presidenta que fosse prejudicial ou negativa em relação a Meirelles. E convivemos já por quatro anos. Se ocorresse isso, eu teria ouvido alguma coisa numa ou noutra ocasião. E é preciso lembrar também que, em matéria política, não há gostar ou não gostar. Há exatamente fazer aquilo que é melhor para o País. Então, volto a lembrar que jamais ouvi uma palavra negativa em relação ao Meirelles.

E de aprovação?

Também não. Mas também nunca comentei o assunto. Eu sei que eu me dou maravilhosamente com ele.

Qual é a expectativa do PMDB no novo governo? Fica como está? Aumenta?

Isso vai depender da decisão da presidente da República. Agora, ela é muito delicada politicamente, vai conversar conosco, PMDB, e com os partidos políticos em geral que participarem da coalizão de governo. Acho que ela estará muito atenta ao tamanho do PMDB e à presença muito significativa do PMDB no Congresso Nacional e no concerto nacional.

A ex-ministra Marta Suplicy está indo para o PMDB?

Interessante, não houve conversa nenhuma, nem comigo nem com ninguém do PMDB. Ela não procurou ninguém. Mas estão dizendo que ela viria ao PMDB porque o Márcio (Toledo, companheiro de Marta) é meu amigo, e é verdade, ele é meu velho amigo. E o Márcio lá atrás se filiou ao PMDB, mas não houve conversa nenhuma.

Seria um quadro bem-vindo?

É um quadro nacional extraordinário, não tenho a menor dúvida. Agora, é uma questão política, né? Se houver conversa, nós vamos examinar, não há nada concreto nesse momento.

O sr. acha que essa aliança com o PT será duradoura ou há espaço para o partido lançar candidato próprio em 2018?

Há um sentimento permanente no PMDB de lançamento de candidatura própria. Por isso em 2018 há essa perspectiva.

Se conseguirem construir a unidade e tiver esse desejo das bases, o PMDB enfrentaria, por exemplo, o ex-presidente Lula?

Se o PMDB estiver unido, sim.

O sr. não teme uma frustração na sociedade pelo fato de o governo estar fazendo o que a candidata Dilma disse na campanha eleitoral que os outros fariam, como redução no papel dos bancos públicos e aumento de gasolina?

Frustração seria o crescimento do desemprego. Quando falamos em retirar a meta do superávit, estamos querendo manter as desonerações tributárias em 59 setores, manter os investimentos do PAC, os repasses para os Estados, manter a produtividade nacional, que gera o emprego. Apesar das dificuldades que o País atravessou e atravessa, ainda temos pleno emprego. Essa é a única preocupação.

Se as metas não forem cumpridas, o que pode acontecer?

Há sanções se você não cumprir a meta. Pode até haver a responsabilização política. Então, a presidenta, necessariamente, terá que cortar muitas despesas também para não haver uma responsabilização.

O sr. não acha que a mudança afeta a credibilidade do governo?

Acho que se você continuar com os mesmos investimentos – e um parêntese, as desonerações geraram queda na arrecadação –, essa é uma matéria que não interessa apenas à União, mas aos Estados e aos municípios. Porque é claro que até os repasses constitucionais se darão se nós conseguirmos mudar a meta do superávit primário. Então, interessa a todo o País. E isso não tira a credibilidade.

Mas não foi dito pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, que a ideia é tirar subsídios e desonerações, gradualmente?

Isso, gradualmente. Não se pode é interromper radicalmente e de uma única vez, porque isso vai gerar desemprego. Isso não é incomum.

Qual é a grande aposta do governo para o novo mandato?

As concessões são uma delas. Nunca houve tantas concessões como as verificadas neste governo.

Após a reeleição, a presidente falou, ao lado do sr., em reforma política com plebiscito, que é uma proposta do PT. Esse é o diálogo que a população quer?

Eu verifiquei que a presidenta, em uma das entrevistas que deu, disse que o importante é ter uma consulta popular e se for plebiscito ou referendo, tanto faz. Portanto, quando ela diz isso, a sugestão que sua fala traz é que não quer conflito com o Congresso Nacional.

O PT defende também a ideia de uma Constituinte exclusiva para a reforma política.

Não, essa eu repudio. Até porque é um equívoco. A Constituinte exclusiva é uma visão equivocada da representação popular, porque não há nada mais elitista do que isso. Ela faz supor que há pessoas mais preparadas, pessoas moralmente mais inatacáveis, eticamente mais comportadas, que podem participar de um núcleo de representação popular, produzir uma reforma, que a representação popular natural e normal não seria capaz de produzir. Constituintes apenas surgem em momentos de ruptura da ordem institucional.

O presidente do PT, Rui Falcão, disse que a primeiro ponto do diálogo é a reforma política e que o segundo é a regulação da mídia.

Na verdade, quando se fala em regulação da mídia, fala-se em regulação econômica da mídia. Não conheço o projeto. Precisamos verificar até que momento a regulação econômica da mídia pode importar em censura. Se for assim, vocês sabem que o PMDB sempre defendeu a mais ampla liberdade de imprensa. E vocês sabem que a presidenta, ao longo do tempo, sempre disse: ‘Olha, eu prefiro uma imprensa livre à uma imprensa amordaçada’. Então, eu acho que não há nenhum risco.

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