Viagem de Lula a Davos divide opiniões

Eram quase 19 horas quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a explicar os motivos de sua ida ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, nos Alpes suíços. Mas, mesmo com toda a diplomacia de Lula, a viagem ao encontro que reúne os poderosos do mundo inteiro acabou dividindo opiniões. "Vocês sabem o que vou fazer lá?" perguntou o presidente. "Nem quero saber", respondeu, no meio da multidão, o estudante André Luiz de Souza. "Devia era ficar aqui em Porto Alegre, não tem nada que ir para esse lugar." Abrigado no Acampamento da Juventude, no Parque Harmonia, André era uma das vozes contrárias à viagem. Lula tentou convencer os militantes lembrando que sempre foi a favor do diálogo para solucionar os problemas. "Em 1978, os metalúrgicos entraram em greve no ABC e o presidente da Fiesp pediu uma audiência com o comandante do Exército, general Dilermando Monteiro, para acabar com a paralisação", afirmou. "Eu peguei o telefone, liguei para o general, disse que era o presidente do sindicato, ele me recebeu e conversamos três horas." Calmamente, Lula chegou onde queria: disse que precisava ir a Davos para fazer um apelo pela paz mundial e por mais distribuição de renda. Na platéia, empunhando uma bandeira gigantesca de Che Guevara, o estudante de Filosofia Paulo Henrique Mazeto acabou convencido. "Lula fez um discurso com o coração, emocionado. Agora, acho que ele deve ir para Davos, sim, para clamar por justiça", observou. Enquanto Lula falava, três bandeiras do Iraque tremulavam no meio das milhares de pessoas que ouviam o pronunciamento. Os estandartes eram erguidos por militantes do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), normalmente aliado da ala quercista do PMDB. Havia também duas bandeiras do próprio MR-8, dezenas da Palestina e outras tantas de partidos como o PT de Lula, PC do B e PSB, além do MST e de partidos e entidades de todo o mundo, principalmente ligados à esquerda. Na direção do Acampamento da Juventude, às margens do Rio Guaíba, Marcelo Eugênio segurava outra bandeira, imensa, com inscrições contrárias à exploração infantil. "Acho essa viagem de Lula a Davos um absurdo", disse Marcelo. "Vai parecer que ele está indo para dar algum tipo de satisfação ao capitalismo, que baixou a cabeça demais para os países do G-7, os mais ricos do mundo." Diretor de uma organização não-governamental em São Bernardo do Campo, berço político de Lula, Eugênio afirmou que, se pudesse, seguraria o presidente no Brasil. "Mas o que é isso, meu filho?", retrucou a paraibana Goretti Lucena. "O fato de ele ir para a Suíça não quer dizer uma capitulação. Ele vai é para discutir os problemas. Afinal, é o presidente da República." Alheio a essa polêmica, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) ouviu todo o discurso de Lula no meio da multidão. Muito assediado, passou boa parte do tempo distribuindo beijos e autógrafos.

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