Isac Nóbrega/PR
Isac Nóbrega/PR

Viagem de Bolsonaro ao Oriente Médio teve ambiente controlado e até 'disputa' sobre time de futebol

De volta ao Brasil, presidente faz live e chama de “malucos” deputados que aplaudiram Lula no Parlamento Europeu

Felipe Frazão, enviado especial a Dubai, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2021 | 23h53

Os países árabes do Golfo Pérsico deixaram Jair Bolsonaro mais à vontade. Em ambiente controlado, muito menos hostil do que a Cúpula do Clima (COP 26) na Europa, da qual escapou, o presidente fez seu contraponto durante a segunda passagem pelo Oriente Médio. Nos Emirados Árabes Unidos (EAU), no Bahrein e no Catar, todos de regimes políticos autoritários, Bolsonaro insistiu numa versão fantasiosa de que a Amazônia não queima, posou de estadista para atrair investimentos ao País, com novas promessas,  e tentou romper o isolamento internacional.

O giro de seis dias pelo Golfo Pérsico ganhou outra dimensão depois que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, virtual adversário em 2022 na disputa pelo Palácio do Planalto, desembarcou na Europa. Lula fez críticas ao governo, foi aplaudido no Parlamento Europeu e se encontrou com o presidente da França, Emmanuel Macron, desafeto de Bolsonaro, e com o premiê espanhol, Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol. Também conversou por vídeo com o social-democrata Olaf Scholz, virtual chanceler alemão. Em resposta, Bolsonaro desafiou o petista a circular pelo Brasil.

De volta ao Brasil, Bolsonaro atacou Lula e, em transmissão ao vivo pelas redes sociais, nesta sexta-feira, 19, chamou de malucos os deputados que bateram palma para o petista. “Tem maluco em tudo quanto é lugar”, afirmou ele.

Nos Emirados Árabes Unidos, o presidente saiu nas páginas do jornal Gulf Today ao lado do príncipe herdeiro de Abu Dhabi, xeque Mohamed bin Zayed Al Nahyan, considerado pelo The New York Times como o líder árabe mais poderoso da atualidade. MBZ, como é conhecido, é quem manda no país de fato, por motivos de saúde do presidente, xeque Khalifa bin Zayed Al Nahyan, seu pai.

A foto teve mais destaque do que o texto, acrítico. O jornal não embarcou no enredo de Bolsonaro de que a Amazônia está intacta. Apenas noticiou de forma protocolar que eles discutiram cooperação entre dois países amigos e que o brasileiro teria felicitado o príncipe MBZ pelo fato de os Emirados Árabes Unidos serem a próxima sede da COP 28, daqui a dois anos.

O encontro, num palácio em Abu Dhabi, animou integrantes da comitiva brasileira. Bolsonaro chamou na última hora o ministro da Economia, Paulo Guedes, para mostrar a carteira de projetos e tentar atrair “petrodólares”, fixação do chefe da equipe econômica na missão internacional. Guedes cancelou, então, três reuniões que faria em Dubai com o ministro da Economia local, com a DP World, que atua em portos no Brasil, e com o fundo soberano Investment Corporation of Dubai. Relatou, depois, que Bolsonaro foi muito bem tratado e gosta desse tipo de conversa.

“Esses caras são tipo o presidente. O presidente olhou para o cara, gostou do jeitão; o cara olhou para o presidente, gostou do jeitão. A palavra que mais se falou foi confiança”, disse Guedes. O ministro afirmou que os fundos emiráticos já investiram U$ 5 bilhões no Brasil nos últimos três anos e prometem mais U$ 10 bilhões para os próximos anos.

Futebol na roda

Houve até uma “disputa” futebolística para ver quem emplacaria seu clube quando os xeques mostraram interesse em comprar times de futebol no Brasil. Bolsonaro sugeriu o Palmeiras, Guedes propôs o Flamengo e Flávio, o Vasco.

Um diplomata que presenciou o tête-à-tête entre Bolsonaro e o príncipe  definiu a conversa como “substantiva”, fora dos padrões de encontros assim no mais alto nível político. Mas disse que a concretização de investimentos de fundos soberanos tende a demorar algum tempo, pois os xeques são cautelosos e "o mundo todo corre atrás do dinheiro deles”.

“Nossa relação é uma das melhores, muito amistosa”, afirmou o parlamentar e empresário Saeed Alaabdi, que representa Ras Al Khaimah, emirado ao Norte da Península Arábica, e trabalha no grupo de amizade entre Brasil e EAU.

Diplomatas da área de promoção do comércio citaram que a confiança entre os países aumentou porque Bolsonaro não limitou exportações de alimentos, como frango e arroz, durante o período mais crítico da pandemia de covid-19, o que garantiu o abastecimento no Golfo Pérsico.

Em Dubai, Bolsonaro seguiu o cerimonial das atividades ao lado das autoridades locais, mas escapou da agenda antes para visitar o Burj Khalifa, edifício mais alto do mundo. Sem que informasse o compromisso, apareceu em jantar de cunho político oferecido pela Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), numa churrascaria rodízio. Também aproveitou para visitar um campeonato de jiu-jitsu em Abu Dhabi, há anos uma modalidade que os árabes importaram do Brasil. E no Catar passeou de moto com um clube local, deslocando-se até o estádio Lusail, que será palco da final da Copa do Mundo em 2022.

O presidente também foi recebido como chefe de Estado em Doha pelo emir do Catar, xeique Tamim bin Hamad Al Thani. E visitou o rei do Bahrein, Hamad bin Isa Al Khalifa em Manama, onde inaugurou a primeira embaixada de seu governo e disse que “sonhava” em visitar o país. Bolsonaro disse que as conversas eram reservadas, mas que a forma como foi tratado mostra a “boa fase” do Brasil.

Bolsonaro não incomodou os chefes locais com questionamentos, tampouco foi incomodado. Em discurso na Expo 2020 Dubai, o principal palco, afirmou apenas que a liberdade e a democracia são “um bem maior do povo” brasileiro. Bolsonaro disse que os Emirados Árabes Unidos “respeitam a todos” e que os povos dos dois países são “cada vez mais parecidos”. O paralelo mais provável é que a população de expatriados é a maior dos EAU, e o Brasil, destino tradicional de imigrantes.

O discurso foi proferido na presença do ministro da Tolerância e Coexistência, xeique Nahyan bin Mubarak Al Nahyan, acusado por uma mulher britância de assédio sexual, o que ele nega. O presidente também encontrou-se em privado com outro membro da realeza cuja conduta vem sendo alvo de questionamentos internacionais: o emir de Dubai, xeique Mohammed bin Rashid Al Maktoum, acusado de manter em cárcere privado as filhas princesas. Primeiro-ministro, vice-presidente e ministro da Defesa dos EAU, ele ganhou as manchetes internacionais após capturar a princesa Latifa, em 2018, durante uma tentativa de fuga na Índia. Ela não foi mais vista em público.

Os governos da região são comandados por monarcas, com pouca liberdade de imprensa, histórico de desrespeito a direitos humanos e trabalhistas, além de restringir liberdades das mulheres e de perseguição de dissidentes que pedem abertura política.

O Estadão presenciou, por duas vezes, hostilidades pontuais ao presidente. Foram gritos de “Fora, Bolsonaro” e “Genocida” de três jovens brasileiras que o encontraram enquanto ele circulava na Expo 2020 Dubai. Os integrantes da comitiva chegaram a rebater o ataque, embora o presidente não tenha esboçado reação.

Quem quebrou o protocolou foi a primeira-dama Michelle Bolsonaro, que o acompanhava no giro árabe. Na Expo Dubai, ela entrou no espelho d’água do pavilhão brasileiro e se deitou numa rede, como se estive numa praia.

Também na feira, Bolsonaro preferiu andar a pé em vez de usar carrinhos de golfe, caminhando alguns quilômetros dentro da Expo, um percurso cansativo. Mesmo cercado por seguranças, conseguiu ir ao encontro de seus apoiadores. Foi a forma de garantir as imagens que o mostram como bem recepcionado lá fora.

A bolha bolsonarista na internet era alimentada no Brasil por conteúdo publicado pelo deputado Eduardo Bolsonaro e pelo senador Flávio Bolsonaro, os dois filhos que acompanharam o presidente. Esse também foi o papel de assessores no Palácio do Planalto e de alguns políticos amigos que se integraram à comitiva, como o ex-senador Magno Malta (PL-ES), o vereador em Belo Horizonte Nikolas Ferreira (PRTB), o advogado Sérgio Sant'Ana, do Instituto Conservador Liberal, e o treinador de jiu-jitsu Renzo Gracie, fã do presidente e celebridade nos Emirados Árabes Unidos.

Todos contestavam o isolamento de Bolsonaro na arena global, fartamente documentado durante a reunião do G-20, na Itália. Para rebater esse fato, publicaram imagens do presidente circulando entre fãs. O  15 de novembro era o Dia do Brasil na Expo Dubai e delegações de empresários do agro e também de industriais, como a turma de Minas Gerais, serviram de claque para o presidente.

A contraofensiva ignorava que a falta de diálogo internacional não será superada com selfies entre turistas brasileiros no exterior, mas, sim, com reuniões bilaterais com líderes globais influentes. Bolsonaro nunca conversou, por exemplo, com o presidente Joe Biden, dos Estados Unidos, a quem considera “um pouco fechado”.

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