Vestidas para invadir e aparecer

As mulheres da Via Campesina foram bem preparadas para as manifestações de ontem. E não apenas em termos táticos: na comparação com outros anos, é possível verificar que cuidaram também do vestuário e seus adereços. Aqui e ali, nas ações que podem acarretar algum tipo de problema legal, apareceram com os rostos cobertos por conjuntos de lenços vistosos, multicoloridos, com bons efeitos fotográficos. Também envergaram grandes chapéus de palha, ainda sem uso, comprados para a ocasião. Nos pés, tênis, sandálias de passeio. Algumas vestiram bem cortadas calças de cintura baixa. Galeria de fotos: Confira as manifestações pelo PaísFoi, enfim, uma manifestação mais bonita e mais colorida que o usual. Fruto da vaidade feminina? É possível. Mas as cenas de ontem podem conter mais informações que essa. Percebe-se, por exemplo, a quase ausência de mulheres acampadas - que são as que saem de bairros pobres da periferia das cidades e vão para os locais de invasões de terra, vivendo em situação precaríssima. Há algum tempo o MST, braço da Via Campesina no Brasil, enfrenta dificuldades para mobilizar tais pessoas. Essa dificuldade se agravou com a instituição do Bolsa-Família e de outros programas sociais, em 2004. A maior parte das ações do MST hoje é realizada por assentados, já estabilizados, mas que continuam fiéis ao movimento.Outra indicação das fotos: as manifestações contaram com a presença de mulheres que não são acampadas nem assentadas, mas simpatizantes urbanas, como estudantes, militantes de partidos de esquerda, ativistas de ONGs. Todos os anos o MST recebe visitas de estudantes da Europa e dos EUA, que, encantados com a causa da reforma agrária, trabalham como voluntários nos assentamentos e até participam de atos.Não se pode esquecer do efeito fotográfico: as fotos de ontem, distribuídas para o mundo, devem ter mais impacto e destaque.

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