Versão de Lupi para voo é implodida pelo próprio PDT, que pede entrega do cargo

Diretório maranhense da sigla nega ter pago aluguel de avião em que ministro viajou com dono de ONG; Dilma pede provas materiais e aguarda ida de Lupi ao Senado

O Estado de S.paulo,

16 de novembro de 2011 | 23h27

 BRASÍLIA - Desmentido quatro vezes pelos fatos – e ontem por seu próprio partido, o PDT –, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, não apresentou à presidente Dilma Rousseff provas materiais sobre o custo e pagamento do voo ao lado de um empresário dono de ONG que mantém convênios com a pasta que comanda e começou a ser abandonado por correligionários. O presidente interino do PDT, André Figueiredo (CE), aconselhou o ministro a deixar o cargo.

 

O Planalto aguarda novas versões que o ministro apresentará hoje, em depoimento ao Congresso, para avaliar quando ele será substituído. 

 

Uma das versões de Lupi foi implodida nesta quarta-feira, 16, pelo próprio PDT. O ministro dissera que o voo com o empresário Adair Meira, da ONG Pró-Cerrado, com negócios suspeitos com o Trabalho, fora pago pelo PDT do Maranhão. Mas o orçamento da viagem do ministro não está na prestação de contas do PDT maranhense. O presidente estadual da partido, Igor Lago, negou que o diretório regional tivesse dinheiro em caixa para bancar o aluguel de aeronave e disse que o partido quer apenas “ajudar a esclarecer todos os fatos”.

 

Com a prestação de contas do partido em mãos, Igor Lago afirmou que o PDT maranhense não tem responsabilidade pelo aluguel de qualquer aeronave para deslocamento do ministro no Maranhão. 

 

“Ontem (terça-feira, 15) mesmo recebi a declaração de contas, que está registrada no Tribunal (de Contas do Estado). Não consta nada sobre transporte aéreo, o diretório regional não arcou com esta despesa”, disse. 

 

E emendou: “O PDT não tem condições financeiras para arcar com os custos de uma viagem dessas. Portanto, PDT não pagou os voos utilizados pelo ministro”.

 

‘Atrás da nota’. A presidente Dilma Rousseff, em encontro com o ministro na manhã de ontem, exigiu que ele apresentasse “provas materiais” do pagamento do voo providenciado pelo empresário dono de ONG com negócios milionários e suspeitos com o Ministério do Trabalho.

 

Apesar do desmentido do próprio PDT, o ministro saiu do Planalto anunciando que “ia atrás da nota”, se referindo à nota fiscal de pagamento do voo, que agora teria de ser do PDT nacional e não mais do regional, como afirmara antes, já que o PDT regional desmentiu que tivesse arcado com a despesa como anunciara Lupi, anteriormente.

 

A ida do ministro ao Senado hoje, onde terá de se explicar e justificar por que mentiu na Câmara sobre o voo e as relações com a ONG, é considerada o teste final para Lupi.

 

Saída. Dez dias depois de estourar o escândalo envolvendo Lupi em irregularidades, a direção do PDT sinalizou oficialmente ontem o abandono do ministro. Integrantes da legenda passaram a defender abertamente a saída de Lupi da pasta. Uma reunião da Executiva Nacional do PDT e das bancadas da Câmara e do Senado marcada para hoje deverá selar o futuro do ministro. 

 

“Como amigo do Lupi, eu sofro muito vendo ele sofrer. É muito doloroso. Como amigo, preferia que ele saísse. Mas isso é uma decisão que o PDT vai tomar de forma institucional”, disse o presidente interino do PDT, André Figueiredo (CE). “O partido confia plenamente no ministro Lupi. A única coisa que questionamos é a oportunidade de ele continuar no ministério. É uma questão de discutir a oportunidade”, continuou Figueiredo.

 

Segundo o presidente do PDT, Carlos Lupi vai contar hoje, durante seu depoimento à Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, quem pagou o avião que usou na viagem ao Maranhão, em 2009, arranjado pelo dono na ONG Pró-Cerrado, Adair Meira. A entidade é beneficiada com contratos de R$ 13,9 milhões com a pasta comandada por Lupi. O deputado Weverton Rocha (MA), que estava na viagem com o ministro, não havia apresentado as notas com o pagamento do avião até o início da noite ontem. 

 

Nomes cotados. Sintomas do acelerado processo de decomposição política do ministro foram detectados ainda ontem, com o surgimento de nomes para sucede-lo, como os pedetistas Osmar Dias (PR) ou o deputado federal Miro Teixeira (RJ). 

 

Ao constatar a falta de apoio do partido, o próprio Lupi cancelou às pressas reunião do diretório, que estava prevista para acontecer neste sábado. 

 

“Quando se passa muito tempo com o partido sendo noticiado de forma negativa, cresce a insatisfação”, observou Figueiredo. “Surgiram novos fatos. Ele (Lupi) precisa dar explicações ao partido”, disse o deputado Brizola Neto (RJ). / ALINE LOUISE (ESPECIAL PARA O ESTADO), EUGENIA LOPES, TANIA MONTEIRO, DENISE MADUEÑO e CHRISTIANE SAMARCO

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