DIDA SAMPAIO/ ESTADAO
DIDA SAMPAIO/ ESTADAO

Verborragia de Bolsonaro é estratégia para manter eleitorado fiel?

Analistas ouvidos pelo 'Estado' afirmam que declarações polêmicas e até escatológicas do presidente, como as mais recentes sobre cocô, são estratégia para manter eleitorado convicto

João Ker e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2019 | 15h55

Em visita ao Piauí nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro reforçou sua lista de  declarações escatológicas - ele já sugeriu que para reduzir a poluição era preciso 'fazer cocô dia sim, dia não' - afirmando, desta vez, que iria "acabar com o 'cocô' no Brasil", agora em uma referência aos corruptos e comunistas.

Na última semana, em vídeo que faz semanalmente no Facebook, Bolsonaro ainda disse que o ministro Sérgio Moro, da Justiça, faria 'troca-troca' com o colega Ricardo Salles, titular do Meio Ambiente, quando o ex-juiz deu lugar a Salles no vídeo. No dicionário, uma das explicações para o termo 'escatológico' é a utilização de expressões ou assuntos relacionados a fezes ou obcenidades.

Estado ouviu analistas nesta quinta-feira, 15, para entender se existe uma estratégia que embasa esse tipo de declarações do presidente. Para além das frases, ele já disse que documentos oficiais sobre mortos na ditadura eram 'balela',  que não existe fome no Brasil - o número de pessoas em insegurança alimentar no País é superior à população da Irlanda, somando mais de 5,2 milhões - e ainda que dados sobre desmatamento produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) são sensacionalistas e prejudicam a imagem do País

'Público x Privado'

Para o psiquiatra Daniel Barros, professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e colunista do Estado, o presidente se projetou, em toda a sua carreira política, como uma "pessoa comum" e, por isso, fala em público frases que seriam esperadas apenas no ambiente privado. "Ele construiu essa imagem de não ser intelectual, de ser 'chucro', 'simples' e ela colou para grande parcela da população. As pessoas se dividem se é calculado ou o jeito dele. Para mim, o que é calculado é não parar de falar assim", argumenta. 

"Na ausência de instrumentos de convencimento de uma parcela maior da população, já que não há grandes propostas ou ideias, o repertório para manter as pessoas ao lado dele é esse". Para Barros, no entanto, há consequências nesse discurso. "As pessoas que estão com ele e o apoiam (após essas declarações) cruzam uma ponte impossível de voltar. Quem se convence de que está tudo bem quando o presidente fala em golden shower, em 'troca-troca' ou 'cocô', faz um exercício de autoconvencimento", afirma.

O psiquiatra vê, com essas atitudes, a criação de uma bolha de apoiadores cada vez menor, porém mais forte. "Com essas bizarrices, Bolsonaro vai colocando gente para fora da bolha, gente dizendo 'para mim, não dá', mas quem fica está muito mais coeso e mais firme ao seu lado". 

'Falta de decoro'

Na avaliação do filósofo Luiz Bueno, professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), não há surpresa em relação às declarações, já que elas marcaram a trajetória do presidente - na campanha e enquanto parlamentar por 28 anos no Congresso Federal. "O desconforto é que ele não assumiu uma postura relacionada ao decoro do cargo, afinal de contas ele é um servidor público eleito para trabalhar para toda a população". 

Para o professor, a população elegeu Bolsonaro justamente "por ele ser assim mesmo" e o próprio presidente tem consciência disso. "Não elegeram por ele ser uma pessoa polida, refinada, elegeram porque é assim, porque Bolsonaro é Bolsonaro, fala o que sente, o que vem à cabeça, não calcula muito. E muita gente acha que isso é expressão de uma autenticidade, de que ele não esconde o jogo e fala o que tem de ser dito", avalia.  

Para Bueno, a parcela que ainda hoje adere ao presidente vê nisso uma virtude, mas quem escolheu o presidente por ser uma saída ao petismo e ao lulismo está descontente hoje. "Não diria que é uma estratégia, muito mais uma questão de entender que sua autenticidade é o seu grande patrimônio". Segundo ele, o fato de as pessoas gostarem desse discurso mostra uma insatisfação com o comportamento de lideranças tradicionais, que estariam se distanciando da população em suas práticas e ideias. 

 

'Há limites?'

“O limite, quem dá, são as instituições”, afirma o cientista político Rodrigo Prando, professor do Mackenzie. Ele explica que cabe aos poderes Legislativo e Judiciário decidir até que ponto as declarações do presidente condizem com o cargo que ele exerce, e se devem ou não ser contidas. “O que ele fala ressoa com o que as pessoas acreditam. Quando o presidente apresenta preconceito ou faz piada machista e homofóbica, muita gente começa a se sentir encorajada de poder falar também.”

Para Prando, as falas do presidente podem revelar uma estratégia de engajamento com bolsonaristas ou um despreparo para a função. “Isso desvia a atenção das pessoas para elementos mais grotescos e menos republicanos. Também pode ser espontâneo ou simplesmente a falta de domínio de assuntos mais sérios, porque lhe falta conhecimento da situação do País”, avalia. 

O professor indica que, hoje, a média de aceitação do governo Bolsonaro gira em torno de 33%, mas os “bolsonaristas convictos” representariam apenas 15%. “Manter essa parcela alinhada seria suficiente? Porque ele pode afastar outras pessoas que não são convictas e votaram nele em 2018, como os órfãos do PSDB, os liberais e os antipetistas”, questiona Prando, apontando um possível empecilho à reeleição de Bolsonaro e 2022. 

Tudo o que sabemos sobre:
Jair Bolsonaro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.