Vendedores de TV via satélite lucram com pacificação na Rocinha

Chegada da polícia provoca a queda de muitas das operadoras clandestinas na maioria das comunidades do Rio de Janeiro.

Paulo Cabral, BBC

13 de novembro de 2011 | 20h40

O sobe e desce da polícia não intimidava a vendedora, que com mais alguns colegas seguia conversando com os moradores da Rocinha oferecendo TV por assinatura em pleno domingo.

"Acordei às quatro da manhã pra acompanhar a ocupação pela TV. Quando deu oito horas e eu vi que estava tudo tranquilo, vim aqui para vender", contou.

Não foi por acaso: ela já tinha experiência no complexo do Alemão, onde também vendeu TV por assinatura via satélite para os moradores logo depois da ocupação.

"Quando a polícia entra, logo começa a cair o 'gatonet' e aí o pessoal que não quer ficar sem TV apela para a gente. Já vendi cinco assinaturas hoje", comemora.

'Gatonet' é o apelido dado nas favelas à venda irregular do sinal das TVs pagas que costuma ser captado direto dos satélites e redistribuído no emaranhado de cabos e fios que é uma das marcas registradas das grandes favelas.

Quando a polícia entra, cabos irregulares acabam cortados e diversos "operadores" saem do negócio, temendo punições.

A vendedora de TV por assinatura quer aproveitar a onda de mudança que vem com a pacificação, mas por segurança prefere respeitar algumas regras básicas da favela. Quando a reportagem pergunta seu nome, ela pensa por alguns segundos e diz: "Coloca Maria. Só Maria."

'Teste interessante'

A antropóloga Mariana Cavalcanti, da Fundação Getúlio Vargas, observa que a capacidade de as favelas desenvolverem uma economia formal e se integrarem à vida da cidade vai ser uma das chaves para o sucesso das operações de pacificação.

"A Rocinha vai ser um teste bem interessante, porque é uma das favelas mais complexas do Rio de Janeiro, com muita atividade econômica", disse. "A pacificação abre as portas de um novo mercado consumidor para as empresas e cria novas possibilidades de novos serviços para a população."

A equipe da defensoria pública que foi acompanhar a ocupação também sentiu a grande demanda da população da Rocinha por serviços. "Em todo lugar por que passávamos, as pessoas nos paravam para perguntar alguma coisa", conta o defensor público do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh), Henrique Guelber, que coordenou a equipe de 13 advogados que visitou a comunidade.

No entanto, os defensores não constaram nenhum caso de violência ou abuso de poder da parte dos policiais, o principal motivo para a presença deles na operação. "Não constatamos nenhuma situação dessas nem recebemos denúncias", disse Guelber.

Mas apesar de iniciado o processo de pacificação, os moradores da comunidade continuam muito resistentes a falar sobre suas impressões a respeito das mudanças na Rocinha mesmo sob anonimato.

"Não sei de nada. E por aqui é melhor esperar quieto para ver o que vai acontecer", disse um morador. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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