DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

‘Anti-PT’, Vem Pra Rua desiste de aderir a ato unificado pelo impeachment

Grupo decide que não participa de protesto ao lado da sigla, e MBL deve repetir postura; líderes de centro ainda tentam construir ‘frente ampla’

Pedro Venceslau e Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 19h31
Atualizado 16 de setembro de 2021 | 20h16

O movimento Vem Pra Rua decidiu que não vai aderir às manifestações pelo impeachment marcadas para o próximo dia 2 de outubro – os atos são convocados pela campanha nacional ‘Fora Bolsonaro’. O motivo é a participação do PT, adversário histórico do grupo, na convocação do protesto. O Movimento Brasil Livre (MBL) ainda não deliberou sobre sua participação na manifestação de outubro, mas alguns integrantes sinalizam que a chance de aderir é baixa. 

“Não faz sentido o Vem Pra Rua participar”, disse Luciana Aberto, porta-voz do VPR. “Nosso registro histórico é anti-PT. Não compactuamos com a candidatura do Lula.” 

Após a decisão do Vem Pra Rua, tomada em uma reunião nesta quinta-feira, 16, coordenadores do MBL avaliavam que dificilmente conseguirão um compromisso dos movimentos de esquerda para que o ato tenha o impeachment do presidente Jair Bolsonaro como pauta única, o que dificulta sua participação. Mais difícil ainda seria chegar a um acordo sobre as cores usadas no ato. O Vem Pra Rua e o MBL são avessos à ideia de marchar ao lado de estampas vermelhas. No último dia 12, os movimentos pediram a convidados que fossem de branco para tentar dar ao ato um caráter “apartidário”. O movimento ainda teria uma reunião na noite desta quinta, 16. 

“Nós não devemos ir, porque dificilmente vai ser uma manifestação de uma pauta só”, diz a porta-voz do MBL Adelaide Oliveira. “Já sinalizaram com várias outras pautas, tipo assim: abaixo a reforma administrativa, Lula livre, Lula 2022. Não vai dar.” 

Adelaide diz, no entanto, que o movimento não deve trabalhar contra a convocação do ato pela esquerda. O deputado estadual Arthur do Val (Patriota-SP), que é coordenador do MBL, diz que até a noite desta quinta o assunto não estava decidido, mas também sinalizou que a adesão do grupo é difícil. “Estou sentindo que é difícil a gente aderir, porque é realmente uma manifestação com pautas de esquerda, não é uma pauta única.” 

O gesto vai na direção contrária do que líderes de centro tentam articular para os próximos meses. O movimento Direitos Já!, fórum que reúne 18 partidos da direita à esquerda, convocou uma nova reunião para esta sexta, 17, com a intenção de organizar para novembro um ato com figuras de um amplo espectro ideológico.

Segundo o coordenador do movimento, Fernando Guimarães, a presença do MBL na reunião ainda era esperada. Ele disse que a decisão do Vem Pra Rua não interfere na organização do ato. 

“Não interfere em nada porque o movimento amplo já existe”, disse Guimarães. “Faremos essa mobilização com aqueles que tem essa compreensão de que não é um momento de disputa de protagonismo, e sim de deixar vaidades e interesses.” 

A decisão do Vem Pra Rua ocorre dias após o grupo ter participado o primeiro protesto de rua da centro-direita pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro. O ato do último dia 12 teve público estimado de 6 mil pessoas, menos do que protestos que vinham sendo organizados por movimentos de esquerda desde maio, apesar de ter recebido uma adesão do PDT de São Paulo e de centrais sindicais de última hora. 

Outro grupo que organizou o protesto do dia 12, o Livres ainda mantém disposição para participar do protesto ao lado da esquerda. Não é uma decisão definitiva, mas uma reunião do grupo decidiu dar início a uma interlocução com a campanha nacional Fora Bolsonaro, mas com a mesma reivindicação de que o próximo ato tenha como bandeira apenas o impeachment. “Gostaríamos de ver um compromisso em direção a uma pauta única, a exemplo do que defendemos para o dia 12”, disse o coordenador do Livres Magno Karl. “Achamos que o dia 2 é uma oportunidade para dar mais um passo na construção de uma coalizão ampla, em favor de um único objetivo.” 

A dificuldade de colocar MBL, Vem Pra Rua e simpatizantes do PT na mesma manifestação remonta à campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016, quando eles estiveram em lados opostos. Por isso, nos dois lados há ceticismo quanto à viabilidade de um palanque nos moldes da campanha Diretas Já, da década de 1980, que tem servido como meta para algumas lideranças mais centristas. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.