Velório de Moreira Salles foi discreto

A discrição mineira com a qual Walther Moreira Salles, 88 anos, conduziu seus negócios foi a marca do último ato da sua trajetória. O corpo do banqueiro de Poços de Caldas (MG), que ergueu o Unibanco na década de 60, chegou para um breve velório às 12h30 de hoje ao Cemitério do Caju, na zona portuária do Rio, vindo de Araras, distrito de Petrópolis, na região serrana do Estado, onde Salles faleceu na manhã da terça-feira de carnaval.Uma hora e meia de corpo presente, suficiente para que cerca de 80 pessoas, entre clientes e amigos de velhos tempos e outros de novos tempos do próprio Walther Moreira Salles, dos seus filhos e dos seus netos, cumprimentassem a família e contemplassem, pela última vez, a face de um homem que participou de forma ativa de importantes momentos da história política e econômica recente do País.Com exceção de uma das três coroas de flores que adornaram a capela D do cemitério, assinada pelo casal Lily (Monteiro de Carvalho) e Roberto Marinho, todo o ambiente era de simplicidade espartana, um desejo da família e um pedido que, diziam os amigos presentes, teria partido do próprio banqueiro. Às 13h30, meia hora antes de o corpo ser conduzido da capela para o crematório, onde será cremado amanhã pela manhã, o padre Lemos, da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, oficiou uma missa.O silêncio respeitoso de Elza, irmã de Walther Moreira Salles, e dos seus filhos Fernando, o mais velho, e Walter Moreira Salles Júnior, o diretor de cinema do popularíssimo Central do Brasil, e da viúva Lúcia, além da presença quase ostensiva de seguranças, funcionou com uma espécie de senha de que tratava- se de cerimônia restrita. Os outros dois filhos do banqueiro, o também cineasta João e o hoje administrador do Unibanco, Pedro, que estavam em Nova York (EUA), eram aguardados para o fim da tarde de hoje e devem comparecer amanhã a outro culto ecumênico no Crematório do Caju, às 9 horas, uma hora antes da cremação.Entre os amigos, destacava-se o ex-ministro da Fazenda Marcílio Marques Moreira, também ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, como Salles, que trabalhou durante 18 anos no Unibanco, de 1968 a 1986, ocupando a diretoria financeira da gestão de Walther Moreira Salles e até a sua vice-presidência. Antes, em 1959, quando Salles viajou aos Estados Unidos, no governo Jânio Quadros, para participar de rodadas de negociação da dívida, Marcílio, que atuava como secretário na Embaixada em Washington, o assessorou.Marcílio destacou o papel inovador que o banqueiro teve no lançamento de produtos, entre os quais fundos de investimentos. E também sua dedicação à cultura. ´Ele chegou a sacar um cheque do próprio bolso para cobrir despesas do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, em 1971, porque eu não conseguia fazer a mágica, como diretor-financeiro, para que as receitas ali cobrissem os gastos."Maria Luíza Marques Moreira, mulher de Marcílio, estava impressionada, ao deixar a capela, com a coincidência da missa celebrada pelo padre da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima e o fato de Elza, que ela chama de Elzinha, a irmã do banqueiro (que deixou a capela amparada pelo cartunista Ziraldo Alves Pinto, mineiro e velho amigo da família), ter posto em suas mãos um rosário dessa santa.Além de amigos próximos da família, como Marcílio, compareceram ao velório o ex-prefeito do Rio Israel Klabin e gente do setor financeiro como Demósthenes de Madureira Pinho, Alvaro de Souza (Citibank) e Theophilo de Azeredo Santos (ex-Febraban) e amigos de Waltinho, o cineasta, como Daniela Thomas, Luiz Carlos Vasconcellos, Xuxa Lopes e Walter Carvalho, além de clientes tradicionais do banco como Arthur Sendas Filho, da rede de supermercados. Também foi à cerimônia o presidente da Eucatex e filho de Paulo Maluf, Flávio Maluf, que estava representando o pai.Do Palácio do Planalto e do Itamaraty, apesar de Walther Moreira Salles ter sido ex-ministro de Estado e embaixador, nenhum representante oficial se apresentou no velório. Tudo, realmente, muito discreto.O filho Fernando contou, com olhos lacrimejantes, que, há 15 dias, a família se reuniu em Araras. "Ninguém imaginava, estavam todos lá, os quatro filhos e os cinco netos, além de parentes próximos. Não se podia prever, mas foi uma despedida", disse, deixando a capela, da qual Waltinho saiu sem dizer uma única palavra, apenas deixando transparecer, discretamente, a dor que é a perda de um pai, mais do que uma personalidade marcante do mundo político e econômico.

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