Velhos de guerra

Na cabeça do Palácio do Planalto estava tudo certo: conquistado o PMDB por inteiro para a base de apoio do presidente Luiz Inácio da Silva, assegurada a distribuição de cargos nos ministérios, feita a divisão do poder no Congresso, com a alternância de petistas e pemedebistas nas presidências da Câmara e do Senado por quatro anos, a união das duas forças nas eleições municipais de 2008 seria apenas parte do roteiro escrito até 2010.A bordo dessa poderosa parceria, o PT poderia, senão prescindir totalmente, pelo menos deixar aos aliados tradicionais, como o PC do B, o PSB e o PDT, papéis secundários.Assim foi que há cerca de dois meses o chamado bloquinho quis saber de Marta Suplicy como seria a formação da aliança de sua candidatura à Prefeitura de São Paulo e ouviu que estava tudo combinado com o PMDB. Orestes Quércia indicaria o vice.ão apenas não indicou, como aderiu à candidatura do prefeito Gilberto Kassab, deixando o PT sozinho agora a correr atrás do bloquinho. O mesmo ocorreu no Rio de Janeiro, onde a candidata do PC do B, Jandira Feghali, apesar de mais bem posicionada nas pesquisas, era tratada com pouco caso pelos petistas. Estavam confiantes no sucesso da aliança com o PMDB do governador Sérgio Cabral.Rompida a coalizão, o PT tem um candidato de desempenho incipiente e Lula quer trocar o apoio do partido a Jandira pela desistência da candidatura do PC do B em São Paulo e a adesão do candidato Aldo Rebelo à campanha de Marta Suplicy.O presidente Lula tem agora duas semanas para fazer o que não fez durante meses: correr atrás dos velhos companheiros de antigas guerras - PC do B, PSB e PDT - para tentar garantir alianças ao PT em algumas capitais e evitar que o partido termine as eleições com uma contabilidade negativa no balanço de perdas e ganhos.A operação casada, que implicaria a retirada de candidaturas e a troca de apoios entre partidos e municípios com realidades e necessidades específicas, é tida como de difícil execução.Combinar os interesses de quatro legendas em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Manaus, onde os processos avançam há meses, não é algo que se faça do dia para a noite pelo simples poder de interferência ou vontade do presidente da República.É preciso sempre antes combinar com os russos que, no caso, habitam diferentes nações, cujas conveniências Lula sozinho tentará compatibilizar, devolvendo a eles o tratamento de gala até então conferido com exclusividade ao PMDB.Alguns se dispõem até a aceitar, mas cientes de que são procurados porque o projeto PMDB, tal como foi concebido, fracassou. O PT, de seu lado, recusou apoio a candidatos pemedebistas, acreditando na popularidade de Lula para sustentar candidaturas próprias. E o PMDB, percebendo que seu lugar era o de reboque, foi cuidar da vida.O PT imaginou que seu plano estratégico teria no PMDB um aliado incondicional, esquecendo-se de que no PMDB a condição preliminar é o compartilhamento imediato de poder.Um caso típico de incompatibilidade de gêneros.No desvioDiante de tantos e tão fartos argumentos oferecidos pelo quadro caótico no Rio Grande do Sul, o ministro da Justiça, Tarso Genro, escolheu um ardil obsoleto para responder à governadora Yeda Crusius, que se diz vítima de armações políticas da "República de Santa Maria", vale dizer, o grupo de Tarso.Segundo o ministro, o problema da governadora é "instabilidade emocional". Tipo do machismo com aroma de naftalina, muito usado por espíritos mais retrógrados em embates com adversários do gênero feminino.A ninguém, por exemplo, ocorreu levantar a hipótese de o ministro da Justiça ter sido acometido de súbito desequilíbrio quando correu para Mônaco na esperança de compartilhar com a Justiça do principado os efeitos da prisão de Salvatore Cacciola.Mas, para Yeda Crusius, a arma escolhida por Tarso Genro não foi ruim. Emoções inconstantes não configuram crime nem justificam processos de impeachment. Ou Itamar Franco não teria terminado o mandato de Fernando Collor nem sido eleito, depois, governador de Minas Gerais.AlternativaPor ora, o DEM fecha com a candidatura José Serra. O mais provável é que continue "fechado" até 2010. Isso não impede o partido, porém, de se movimentar para pôr um nome a teste no primeiro turno: o da senadora Kátia Abreu.Tanto pode correr "por fora" no primeiro turno, quanto pode vir a se tornar competitiva daqui até lá, ou mesmo se juntar à chapa do PSDB.De alguma forma menos subalterna o partido se apresentará no processo da sucessão presidencial e o investimento no nome da senadora é evidente, embora cuidadoso o suficiente para não abrir fissuras antes do tempo no campo adversário ao presidente Lula.

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