Veja os pontos que Lula discutirá em encontro com Obama

Lula será o terceiro chefe de Estado a visitar a Casa Branca desde a posse do presidente americano

13 de março de 2009 | 17h23

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reúne neste sábado com o presidente americano, Barack Obama, em um encontro cercado pela expectativa de que os dois líderes busquem uma estratégia de consenso para enfrentar a atual crise na economia mundial. É o primeiro encontro de Lula com Obama, desde que o americano assumiu a Presidência.

 

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Há vários assuntos na pauta, como protecionismo, diplomacia e etanol. Os dois devem discutir ainda questões da próxima reunião do G-20, grupo que reúne países emergentes e as maiores potências econômicas do mundo, a ser realizada no próximo dia 2 de abril em Londres.

 

Lula será o terceiro chefe de Estado a visitar a Casa Branca desde a posse de Obama. O presidente chega logo atrás do primeiro-ministro do Japão, Taro Aso, e do primeiro-ministro da Grã Bretanha, Gordon Brown. A visita marcada para as 11 horas (12 horas, horário de Brasília) deve durar cerca de uma hora. Depois de almoçar na casa do embaixador Antonio de Aguiar Patriota, Lula embarca para Nova York, onde participa de um painel para investidores na segunda-feira.

 

Veja os principais pontos em discussão:

 

G-20 e crise

 

A expectativa é de que o encontro do grupo em abril possa render acordos-chave para combater a atual crise financeira. Lula disse que falará com Obama sobre o restabelecimento do crédito internacional. Ele está otimista de que os Estados Unidos sairão logo da crise, assim como está otimista com a reunião do G-20. Mas, avisou: "Essa crise tem que acabar este ano, portanto, tem coisa que precisa se fazer urgentemente".

 

Como solução, Lula diz que defenderá que a prioridade para resolver a crise financeira internacional não é colocar dinheiro em bancos, mas "assumir a normalização do crédito internacional". Segundo Marco Aurélio Garcia, assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Lula e Obama deverão se concentrar na discussão da crise e de uma possível ação coordenada entre EUA e Brasil para a reunião do G-20.

 

Energia

 

Depois de uma reunião com o primeiro-ministro britânico Gordon Brown, Obama declarou que preferiria comprar petróleo do Brasil do que da Venezuela. Em entrevista à BBC, o diretor do programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade Johns Hopkins, Riordan Roett, diz que há um claro interesse em reduzir a dependência de petróleo da Venezuela e da Arábia Saudita, "que corre o risco de ter um novo governo radical no poder".

 

Segundo ele, as novas descobertas de petróleo no Brasil e os investimentos da China "fornecem um triângulo muito interessante para os americanos entre Estados Unidos, China e Brasil, e eles poderão se aproveitar dessa nova produção em cinco ou seis anos".

 

Etanol

 

Lula deve sugerir ao presidente americano uma ampliação do memorando de entendimento de biocombustíveis, assinado em março de 2007, para que os dois países promovam o uso do etanol e combatam o aquecimento global. Lula não deve pedir diretamente a redução da tarifa sobre o etanol brasileiro, o que depende do Congresso. Mas pode propor a ampliação do memorando para que o Brasil tenha acesso a uma cota livre de taxação, enquanto a tarifa em si não é rediscutida no Congresso em 2011.

 

Lula deve levantar o tema e dizer que, enquanto os Estados Unidos mantiverem o etanol brasileiro fora do território americano, não haverá uma parceria real. A indústria de etanol brasileira está de olho no mercado de créditos de carbono que será criado nos Estados Unidos.

 

Protecionismo

 

A preocupação com o sistema financeiro internacional deve levantar o tema do protecionismo americano, um dos temas que Lula diz ser "prioritário" para tratar com Obama. O Brasil deve "convocar os Estados Unidos a evitar o protecionismo e a garantir que seus mercados ficarão abertos e que não haverá restrição de capital", diz o presidente do centro de estudos Inter-American Dialogue, Peter Hakim, em entrevista à BBC.

 

Em entrevista recente ao Wall Street Journal, Lula criticou duramente as recentes medidas protecionistas tomadas por nações que normalmente promovem o livre comércio. Entre as medidas citadas por Lula está a cláusula "Buy America" do último pacote de estímulo aprovado no Congresso americano, apesar de ter sido modificada para garantir que os EUA cumpram as regras do comércio internacional."O Brasil é contra a volta do protecionismo e não é possível que, no primeiro calo que comece a doer, os países ricos achem que têm de trazer de volta o protecionismo", afirmou presidente.

 

Rodada Doha

 

Há duas semanas, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, se reuniu com a secretária de Estado americana, Hilary Clinton, e disse que a melhor maneira de evitar o protecionismo é seguir adiante com a Rodada Doha de liberalização do comércio.

 

A administração Obama defende uma reabertura do pacote que foi negociado até agora na OMC. Em seu primeiro relatório sobre comércio, o governo Obama ressaltou a necessidade de corrigir os "desequilíbrios" da negociação multilateral de comércio. O tom mais crítico em relação a Doha e outros acordos comerciais é uma ruptura em relação ao governo Bush.

 

A Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) foi lançada em novembro de 2001, na capital do Catar, com o objetivo de obter maior liberalização do comércio mundial. Quase sete anos depois, os países envolvidos nas discussões ainda não conseguiram chegar a um acordo. Até agora, as discussões têm esbarrado principalmente no tamanho dos cortes de subsídios à agricultura por parte dos países desenvolvidos e no quanto o comércio de serviços pode ser liberalizado.

 

Em meados de 2008, os principais atores da OMC chegaram perto de um acordo. Mas o tratado acabou fracassando diante de divergências entre Estados Unidos e Índia. Agora, a Casa Branca alerta que as concessões dos países em desenvolvimento precisam ser maiores, insistindo em garantir um maior acesso aos mercados dos países emergentes para suas exportações.

  

Cúpula das Américas

 

A cúpula será realizada em Trinidad e Tobago no dia 17 de abril. O encontro "será a primeira vez que Obama vai interagir com presidentes como Rafael Correa (Equador), Evo Morales (Bolívia) e Hugo Chávez (Venezuela), e ele deve levar uma mensagem de cooperação para a região". Já que Lula encontrará Obama antes, ele pode propor ao americano maior flexibilidade na relação com Cuba e Venezuela.

 

A agenda aberta dos dois presidentes permitirá que a questão da reaproximação entre Cuba e EUA seja exposta a Obama por Lula, mesmo sem que o assunto tenha sido previamente discutido com Havana. Essa disposição está embasada no interesse já expresso por Washington de flexibilizar sua relação com o governo cubano.

 

No caso da Venezuela, o presidente brasileiro recebeu de seu colega Hugo Chávez a missão de apresentar a Obama sua intenção de distender as relações. Amorim advertiu, porém, que o Brasil não quer negociar em nome de outros países.

  

O que é o G-20?

 

Criado em 1999, quando o mundo vinha de uma sequência de crises financeiras, o G-20 é composto, na verdade, por 19 países: África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Rússia, Turquia, Reino Unido e EUA. Esse grupo responde por 90% do PIB, 80% do comércio mundial e dois terços da população do planeta.

 

Site oficial: http://www.g20.org/G20/

 

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