Vazamento de operação da PF beneficiou clã Sarney

Relatório da PF mostra que o presidente do Senado atuou pessoalmente para evitar que o filho fosse preso

Rodrigo Rangel, de O Estado de S.Paulo,

15 de setembro de 2009 | 16h18

Relatório da Polícia Federal a que o Estado teve acesso mostra que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), atuou pessoalmente para evitar que o filho, o empresário Fernando Sarney, fosse preso durante a Operação Boi Barrica, rebatizada de Operação Faktor.  Esta matéria estava pronta há mais de um mês, mas só pôde ser publicada nesta terça-feira, 15, devido ao fim da censura imposta ao Estado. 

 

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Para a PF, Sarney teve informações privilegiadas sobre o andamento da investigação, que corria em segredo de justiça. O relatório mostra que os Sarney, que foram à Justiça para impedir o Estado de publicar informações sobre a operação, foram os primeiros a se beneficiar do vazamento de dados sigilosos do inquérito.

 

No documento, a polícia transcreve uma conversa do próprio senador Sarney com o filho. É o primeiro de uma sequência de diálogos que, segundo os investigadores, deixam claro que a família soube, com antecedência, da possibilidade de Fernando ser preso e ter seus endereços devassados em ação de busca e apreensão. O vazamento levou a PF a desistir da busca.

 

O relatório foi enviado em setembro de 2008 pelo delegado da operação, Márcio Adriano Anselmo, ao juiz encarregado do caso, Neian Milhomem Cruz, em atuação na 1ª Vara Federal Criminal de São Luís. Destinava-se, nas palavras do delegado, a comunicar "fatos graves ocorridos no decorrer da investigação em andamento, que denotam o claro vazamento de medidas impetradas por esta autoridade".

 

O vazamento se deu num momento importante da investigação. Um mês antes, em 20 de agosto, o delegado pedira ao juiz a prisão de Fernando Sarney, da mulher dele, Teresa Murad, e de outros investigados. Pedira, ainda, autorização para realizar uma operação de busca e apreensão nos endereços comerciais e residenciais do grupo. O delegado relata que, oito dias depois de protocolados os pedidos, tiveram início "condutas suspeitas por parte dos investigados".

 

Conduta suspeita

 

A primeira das "condutas suspeitas" a que se refere o documento da PF é justamente o telefonema que Fernando recebe do pai. "Inicialmente, em 28 de agosto, Fernando Sarney recebe uma ligação de seu pai, o senador José Sarney, determinando ao filho que viesse a Brasília naquele dia. Detalhe: Fernando havia deixa (deixado) Brasília no dia anterior", afirma o relatório. O nome de Sarney é destacado em letras garrafais.

 

A ligação aconteceu no início da tarde. Sarney estava em Brasília. Fernando, em São Paulo. O senador pergunta se o filho poderia se deslocar para Brasília ainda naquele dia. Fernando diz que estaria na cidade apenas no dia seguinte. "Eu precisaria de você hoje aqui", afirma Sarney.

 

A reação de Fernando mostra que, no primeiro momento, ele não entendera o pedido do pai como uma ordem. Sarney, então, reforça a orientação ao filho. Repete que ele deveria "vir o mais rápido aqui". Depois reitera, ainda mais incisivo: "Venha hoje". Precavido, o senador não se refere à investigação. Diz que precisaria falar com Fernando sobre assuntos da política do Maranhão. Não foi o que a Polícia Federal entendeu.

 

O relatório da PF observa ainda que, menos de uma hora após o telefonema de Sarney, um dos advogados de Fernando no caso, Paulo Baeta, telefona para o filho do senador e, de acordo com a descrição da Polícia Federal, "começa uma conversa com o mesmo teor da anterior, dizendo para Fernando que ele precisa voltar a Brasília urgentemente".

 

"Eu preciso conversar com você o mais depressa que puder, se possível hoje ainda", afirma o advogado. "É muito, muito urgente?", pergunta Fernando. Baeta, então, responde que sim. O cuidado dos dois ao telefone é evidente - em nenhum momento os dois tocam no assunto "urgente" sobre o qual precisavam conversar.

 

Fernando cumpriu a orientação do pai e do advogado. Naquela mesma data, à noite, retornou a Brasília. Do aeroporto, seguiu direto para a casa do advogado. Estava monitorado pela polícia. O empresário passou os dias seguintes hospedado na casa do pai. De acordo com fontes ligadas à investigação, foi o próprio Sarney que determinou ao filho que permanecesse em sua casa. Acreditava que, caso a prisão de Fernando fosse decretada, dificilmente a PF entraria na residência de um ex-presidente da República para cumprir o mandado.

 

Celular desligado

 

Segundo o relatório, logo depois das conversas para as quais fora chamado a Brasília, Fernando mudou de comportamento. "A partir desse dia, o fluxo de ligações telefônicas de Fernando reduziu-se drasticamente, tendo o mesmo, inclusive, passado a se utilizar de terminais acessórios, que poucas vezes haviam sido utilizados, permanecendo até, por algum tempo, com o seu celular principal desligado", afirma o texto da PF.

 

No dia seguinte, Fernando telefona para sua secretária em São Luís, Ângela Balby. Pede que ela entre em contato com o engenheiro Flávio Barbosa Lima. Flávio, ex-colega de faculdade de Fernando, também é alvo da investigação. De acordo com os policiais federais, ele e Gianfranco Perasso, outro colega de Fernando no curso de Engenharia Elétrica da USP, agiriam como testas de ferro do filho de José Sarney.

 

À secretária, Fernando diz que precisava conversar com Flávio em "número seguro". Deu o número do telefone fixo do escritório de advocacia, onde estava naquele momento. A secretária cumpre a ordem. A Flávio Lima, ela avisou que era para ligar a partir de um telefone convencional. O celular de Flávio, a exemplo do de Fernando, estava grampeado pela polícia.

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