Vaticano abre arquivos sobre ligações da Santa Sé com o nazismo

O Vaticano abre hoje parte de seus arquivos secretos sobre as relações diplomáticas da Santa Sé com a Alemanha nazista, colocando à disposição dos pesquisadores e historiadores correspondência e documentos referentes ao primeiro período do pontificado de Pio XI, que foi papa de 1922 a 1939. A documentação - são 233 pastas da Nunciatura Apostólica de Munique (1922-1934) e 101 da Nunciatura de Berlim (1922-1930) - corresponde apenas parcialmente ao pontificado de Pio XI e coincide com a chegada de Adolf Hitler ao poder, em 1933. "Quando for aberto todo o pontificado do papa Ratti (Pio XI), dentro de três anos, provavelmente teremos material mais original", declarou o diretor do Arquivo Secreto, padre Sérgio Pagano, ao jornal Corriere della Sera. Ele acredita que, apesar da volumosa quantidade de documentos liberados para consulta, não deverá ser grande o interesse dos especialistas pelo material, porque boa parcela dele já é conhecida. "Os estudiosos do Holocausto nem virão consultar nossas pastas", prevê o diretor. As pastas ainda mantidas em sigilo guardam os documentos que forneceram argumentos para a encíclica Mit brennender Sorge (Com preocupação ardente), na qual Pio XI externou sua angústia diante da ameaça do nazismo, e para uma outra carta sobre a perseguição aos judeus, que não chegou a ser publicada. A decisão de liberação dos documentos partiu do papa João Paulo II. Consulta Os pesquisadores terão de se credenciar para terem acesso à Sala de Estudos do Arquivo Secreto do Vaticano, onde os documentos devem ser consultados. Serão liberados, no total, os seguintes títulos: Arquivo da Nunciatura Apostólica de Munique da Baviera (1922-1934), Arquivo da Nunciatura Apostólica de Berlim (1922-1930), Negócios Eclesiásticos Extraordinários da Baviera (1922-1939) e Negócios Eclesiásticos Extraordinários da Alemanha (1922-1939). "Guardamos documentos que somam 85 quilômetros de de extensão, mas somos apenas 50 pessoas para fazer tudo", lamentou o padre Pagano, ao justificar a demora da Santa Sé em liberar seus arquivos secretos. "Temos de numerar, juntar, carimbar e fichar milhões de documentos de cada época", informou o padre. O diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls, advertiu que não se deve criar muita expectativa em relação ao arquivo de Berlim, porque grande parte dos documentos relativos ao período de 1931-1944 foi destruída no bombardeio da capital alemã e no incêndio do Palácio da Nunciatura Apostólica. Embora parcial e fragmentada, a documentação liberada agora terá particular interesse para os historiadores - especialmente para os estudiosos do Holocausto - porque se refere ao período em que Eugenio Pacelli, o futuro papa Pio XII, foi núncio apostólico na Alemanha. Ele serviu de 1922 a 1925 em Munique e, de 1925 a 1929, em Berlim. Além disso, foi secretário de Estado, de 1929 a 1939. Pio XII, que governou Igreja de 1939 a 1958 - portanto, durante toda a Segunda Guerra - foi posteriormente acusado por pesquisadores de haver se omitido diante do nazismo, provavelmente por causa de suas relações políticas e afetivas com a Alemanha. A acusação surgiu em 1954 com a peça O Vigário, do alemão Rolf Hochhuth, e culminou com o livro O papa de Hitler, publicado recentemente por John Cornwell. "Calúnia" O Vaticano classificou essa versão como "grande calúnia" e lembrou o que Pio XII fez pelos judeus durante a perseguição nazista. A Igreja Católica, argumentam os defensores de Eugenio Pacelli, salvaram 850 mil judeus do Holocausto, pelo trabalho dos núncios apostólicos da Hungria, Romênia e Croácia, por ordem expressa do papa. O silêncio de Pio XII, que teria se calado diante do nazismo para não prejudicar os católicos alemães, "encobria uma ação secreta das nunciaturas e dos episcopados que tratavam de impedir as deportações", escreveu o historiador jesuíta Pierre Blet, a quem Paulo VI encarregou de publicar as atas e documentos da Santa Sé relativos à Segunda Guerra Mundial. Ainda em defesa de Pio XII, o Vaticano invoca o testemunho de líderes, organizações e órgãos da imprensa judaicos que reconheceram publicamente iniciativas da Igreja em proteção dos judeus. Segundo o jornal New York Times, de 12 de outubro de 1945, o Congresso Judaico Mundial doou 20 mil dólares à Santa Sé, no término da guerra, em reconhecimento ao que ela havia feito para salvar os judeus da perseguição nazifascista. A polêmica respingou na causa de beatificação de Pio XII, que João Paulo II pretendia elevar aos altares, quando declarou beatos outros dois papas - Pio IX e João XXIII. O processo continua na Congregação para a Causa dos Santos, mas está demorando mais do que se imaginava. Além das críticas de historiadores e líderes judeus que não se convenceram com os argumentos em favor de Eugenio Pacelli, a beatificação enfrenta resistência também entre teólogos e pesquisadores católicos. Todos devem estar ansiosos pela liberação de novos documentos sobre as relações do Vaticano com o nazismo.

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